Um ano que não terminou

673
Créditos: Reprodução Internet

Hoje é a minha estreia como colunista semanal do portal da ANF. Quem é de teatro adora estreias, ainda mais junto a este grande elenco de parceiros e colaboradores que admiro e respeito. Começo relembrando um episódio de 17 anos atrás, denunciando de cara a minha idade e a de todos os envolvidos.

No ano 2000, um grupo de 200 sem-terra, sem-teto, favelados e estudantes fizeram o primeiro rolêzinho da história no Shopping Rio Sul, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Entraram organizados e pacificamente, visitaram algumas lojas, olharam as vitrines, circularam pelos corredores e terminaram o passeio em um piquenique, com tubaínas e sanduíches de mortadela, na praça de alimentação. Escândalo e agressividade só se viu dos donos de lojas, que fecharam as portas, e na cabeça de frequentadores da elite carioca que foram embora esbaforidos, temendo saques ou alguma ação violenta que não aconteceu. Os principais jornais do Rio estamparam o acontecimento com destaque em suas capas. O episódio virou documentário, já foi citado em livros e em textos acadêmicos. Mas, apesar de ter participado do processo de preparação do ato, foi só através dos jornais do dia seguinte que eu soube quem era um dos líderes do movimento: o ativista social André Fernandes.

Aquela ação no Rio Sul havia sido, em parte, discutida e organizada nos jardins do Centro de Letras e Artes da UNIRIO, onde eu estudava, e onde, naquele momento, estávamos acampados, ocupando a universidade na Vigília pela Democracia. Além da luta pelas bandeiras da greve das universidades federais, o movimento reivindicava a aceitação, pelo governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, do resultado das eleições para reitor ocorridas naquele ano. O Ministério da Educação de FHC ia indicar o terceiro colocado, e não o candidato mais votado pela comunidade acadêmica. O movimento, que culminou na ocupação da reitoria, foi fundamental para reverter este cenário e garantir a posse do candidato vitorioso nas urnas.

Mas para além das questões da universidade, a Vigília era um ambiente de intensos debates, discussões acaloradas, vivências e divergências. Fazíamos festa e discutíamos política a noite inteira, e no dia seguinte havia oficina de yoga, teatro, saudação ao sol, aulas públicas sobre temas variados, atos de rua e manifestações. Era um momento de grande convulsão e movimentação social no país – quem viveu aquela época sabe bem. E o jardim do CLA da UNIRIO ocupada pelos estudantes virou por alguns meses um quartel-general de ativistas, subversivos, revolucionários, radicais-livres e malucos-beleza em geral.

Várias pessoas que estão por aí, liderando movimentos e processos artísticos, políticos, sociais e culturais, passaram por lá. Para não ir muito longe: o vereador carioca Renato Cinco, após ter presidido o DCE da UFRJ, dava expediente no jardim como funcionário do Centro Acadêmico Oduvaldo Viana Filho, da Escola de Teatro da UNIRIO. Ou seja, era um militante profissional, com carteira assinada! A gente era feliz, e sabia. Tenho muito orgulho de ter vivido e lutado ao lado de figuras como ele e muitos outros que viveram de alguma forma aquela experiência: Orlando Costa, Marcos Barreira, Aline Guimarães, Elisa Cunha, Natasha Corbelino, Daniela Pereira de Carvalho, Dani Abreu, Clarisse Gurgel, Ivan Sugahara, Bruno Aragão, Paulo Felipe Varella (PF), Rodrigo Pinho, Fernando Lopes Lima, Janaína Rousseff, Ana Alckmin, Hugo da Matta e tantos outros que cometo a injustiça de não mencionar, mas em quem, quando vejo na cena da vida ou acompanho pelas redes, sinto o DNA desta vivência comum que tivemos, e que influencia o que somos e o que fazemos até hoje.

Por fim, volto ao André Fernandes, o sujeito oculto (por razões de segurança, como vim a saber depois) que liderou aquele movimento no Shopping Rio Sul. De lá pra cá, André fez das notícias de sua guerra particular a primeira Agência de Notícias das Favelas do mundo. E está aí mandando (e fazendo) brasa, sempre aberto a construir junto, a experimentar, a conectar pessoas e envolver novos parceiros nas suas empreitadas. Tenho orgulho e gratidão de ser seu amigo e por poder, a partir de hoje, escrever minhas mal-traçadas linhas neste portal. Vida longa à ANF!

Compartilhar
Artigo anteriorA paz que alimenta a guerra
Próximo artigoProjeto de teatro da Maré chega ao Teatro Gonzaguinha
Gestor cultural, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO e mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF. Foi diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura entre 2015 e 2016. Atualmente dirige o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e é autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina" (ANF Produções).