Transportes: um legado duvidoso para o Rio de Janeiro?

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Créditos: Rejane Neves / ANF

 

Considerado um dos grandes legados olímpicos pela Prefeitura, o sistema de transportes do Rio foi alvo de inúmeras alterações para facilitar o deslocamento do carioca pela cidade. Transolímpica, Transcarioca, BRT e redesenho de linhas de ônibus foram algumas das medidas implantadas pelo município para facilitar a vida de quem precisa andar de ônibus ou carro pela cidade. Mas o sistema é alvo de reclamações de quem precisa utilizar o serviço diariamente e espera pelo pior após o fim dos megaeventos que a cidade recebe até setembro.

Estima-se que cerca de R$17 bilhões tenham sido investidos no legado olímpico da mobilidade urbana. O alto custo dos investimentos nos transportes do Rio não é sinônimo, porém, de alta qualidade nos serviços. A lista de problemas relatados pelos usuários é longa. Muitas das vias expressas ainda não estão em funcionamento; antigas linhas de ônibus foram extintas – o que aumentou o custo da passagem e o tempo da viagem; há construções inacabadas; o trânsito segue caótico em áreas da Barra da Tijuca, o destino de final de grande parte dos usuários. Além de tudo isso, os ônibus articulados do BRT, que têm capacidade para apenas 160 passageiros, não conseguem suprir a demanda de um transporte de massa e circula diariamente com superlotação de passageiros.

Leandra Silva, 37 anos, é moradora do bairro de Chaperó, em Itaguaí, e trabalha há um ano na Barra. Ela relata que utiliza de três a quatro conduções para chegar ao trabalho todos os dias, gastando mais de R$100 por semana. Leandra precisa acordar muito cedo e, às vezes, pegar quatro ônibus para não se atrasar. “Gasto uma hora e dez minutos de Chaperó para Santa Cruz. De lá, vou para a fila do BRT e, às vezes, levo quase uma hora para pegar ônibus. Só então desço no terminal da Alvorada e pego outro ônibus pra poder ir para a Avenida das Américas”, conta.

A vida da doméstica Sônia, que preferiu não se identificar, não é diferente. A moradora de Marechal Hermes trabalha há três anos no Recreio dos Bandeirantes e lembra que, antes das obras, gastava uma hora e meia de casa até o trabalho e pegava uma única condução. Hoje, precisa acordar mais cedo, e pega três ônibus para chegar ao seu destino. Mas o problema maior, segundo ela, é a falta de organização no terminal de Madureira. “Chego quase todos os dias atrasada. Os ônibus expressos e paradores são superlotados e há uma confusão enorme de pessoas que não respeitam a fila. É uma coisa animalesca, todos saem correndo para irem sentados”, relata.

Por outro lado, há moradores que estão satisfeitos com a criação da via e a utilização do BRT. “Uso o ônibus quando quero ir mais rápido, principalmente para chegar à Zona Sul. Eu acho que vai ajudar na mobilidade, pois ficou bem fácil de chegar de onde moro, que é próximo ao Riocentro”, afirma o morador de Curicica e ator Renan Dornelles, de 31 anos. O morador de Sulacap Marlon Iqueda, de 43 anos, crê nos benefícios da obra, mas ainda não sabe qual será o real impacto deste transporte no seu bairro a longo prazo: “É uma obra muito importante de mobilidade urbana para a cidade. Vai facilitar muito minha vida, pois tenho familiares moradores do Recreio. Mas Sulacap foi muito impactado com as obras e será ainda mais com a circulação de 70 mil veículos depois da Olimpíada. Vamos aguardar”.

Procurada, a Secretaria Municipal de Transportes do Rio de Janeiro não respondeu aos questionamentos feitos pelo Jornal A Voz da Favela.

 

Publicado na edição de Agosto de 2016 do Jornal A Voz da Favela.

Colaborou Julianne Gouveia