Todo dia, na sua cara e na minha pele

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Créditos: Reprodução Internet

O Exército Brasileiro ocupou a cidade. Mas prefiro falar sobre Anitta, Pabllo Vittar e Rico Dalasam. Calma, continua comigo… Prometo que será interessante.

Vejam só vocês: comecei a rascunhar esse texto e não tinha a menor ideia de por onde começar. Não por falta de conteúdo, mas por excesso. Entre pautas diversas, escolhi iniciar pelo hit que bombou as redes nos últimos dias. Discussões de esquerda e direita? Não. A disputa da vez se dividia entre os que defenderam e os que repudiaram o clipe da Pabllo e da Anitta, que teve direito até a figurino de plástico no deserto (eu não entendo nada de figurino mesmo, então, vamos pular essa parte).

No meio de tudo isso, estava Rico Dalasam reivindicando os direito sobre a música “Todo dia”, escrita por ele e interpretada em parceria também com Pablo. Parece que as discussões sobre direitos e igualdade de gênero foram até abafadas nesse momento.

Proponho aqui uma pausa, uma licença poética para parafrasear Carlos Drummond de Andrade e notificar que tínhamos uma pedra no meio do caminho.

Enquanto o Exército Brasileiro ocupava as ruas do Rio de Janeiro, eu pegava uma carona para chegar ao bairro de Santo Cristo (que Ele nos proteja), rumo a uma imersão de empreendedores favelados – em busca da restauração de uma “esperança abalada, sem perder a sua fé. Sente a pressão, pega a visão”. Avisei que chegaria atrasada, pois o Exército ocupava parte da Rodovia Rio-Magé. Enquanto eu e minhas amigas fazíamos comentários, dentro do carro, vejo apenas meninos franzinos do lado de fora. Eis a nossa grande segurança (de quem?) brasileira.

Alguns dias após o episódio, não muito longe dali, a favela estava em confronto. Vários amigos relatando seus confrontos territoriais nas redes sociais. Nos jornais ou na TV, nada é tão diferente, e eu mesma tenho acompanhado de perto essa falácia que é nossa segurança pública. Afinal de contas, o que se esperar de um país onde os governantes marcam na pele o orgulho por um governo em decadência?

Opa! Apenas mais uma pausa, prometo que será a última. Preciso de um café, apesar de o médico ter notificado que a iguaria vai acabar me matando pelo excesso. Ainda mais essa? Como se já não fosse demasiadamente pesado lidar com as balas perdidas que atingem mães pelas cidades e provocam o infanticídio de quem ainda nem entendeu a vida… Como se já não fosse ensurdecedor o grito de quem sobrevive a uma tentativa de feminicídio ou de quem virou mais um dia fora da curva do genocídio e do racismo marcado “Na Minha pele” diariamente. Ainda querem tirar o meu café? Aí, já é demais!

Ok, tudo bem. Preciso mesmo dar uma suavizada. Essa coisa de driblar o sono não faz bem. Ainda assim, eu prefiro estar bem acordada para respirar aliviada pelas histórias que são contadas, como a da Dona Diva, professora aposentada de 77 anos que fez Lázaro Ramos chorar na FLIP – Feira Literária de Paraty, em frente a 500 pessoas na platéia e outras e milhares pelas redes, relatando sua trajetória como mulher negra.

Respirei! Ufa! Que bom que ali estava mais um dos nossos! Que bom que não a silenciaram mais uma vez!

Volto para as redes e as discussões sobre Pabllo, Anitta e Dalasam não fazem sentido algum pra mim. Me pergunto onde está sendo aplicada nossa energia. Não me entendam mal, por favor. Acredito ser extremamente importante o diálogo sobre a música brasileira, mas existem questões que todo dia estão na sua cara.

Aliás, vocês sabem quem é Rafael Braga? Essa pauta, sim, está na minha pele desde junho de 2013.