Somália: um silêncio branco

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Fonte: retirada da internet

No último sábado, assistimos ao maior ataque terrorista dos últimos cinco anos em número de vítimas. No entanto, a grande mídia brasileira não mostrou nada. Não vimos plantões a cada minuto falando dos mortos, dos feridos – nada, absolutamente nada. Foram em torno de 600 vítimas entre letais e não letais. O descaso é tanto que é como se nada tivesse ocorrido.

Eu me pergunto a todas e todos: cadê as hashtags #JeSuis para a Somália? O bordão foi bastante utilizado nas redes sociais depois dos ataques à comunidades europeias nos últimos anos. Nem mesmo a esquerda brasileira, em sua maioria, se posicionou – o que parece, no mínimo, contraditório, pois vivem a espalhar por aí aquela frase de efeito de Marx: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”. Mas, agora, ignoram os trabalhadores pretos e trabalhadoras pretas do país africano. Ou será que é necessária a complementação: “Proletários brancos de todo o mundo, uni-vos”?

É importante destacar que não foi a esquerda mundial que gerou o racismo. Por outro lado, é preciso dizer que ela pouco tem se dedicado a enfrentá-lo. Estão sempre na defensiva, dizendo que, primeiro, façamos a revolução e depois pensemos nas pautas identitárias. Fica a indagação: como esperar a revolução – que sinceramente a curto prazo parece não ocorrer – se estamos morrendo diariamente das mais variadas formas? Se aqui no Brasil não temos ataques terroristas, sofremos ataques homicidas da Polícia Militar e das milicias, em que a primeira mata com autorização do Estado e a segunda realiza chacinas para “resolver” os conflitos nos locais que controlam.

Semana passada, uma emissora divulgou em um de seus telejornais uma pesquisa que afirma que, até 2021, o número de jovens mortos por armas de fogo deve alcançar o patamar de 45 mil por ano. Como esperar a revolução? A não ser que a tática seja realmente a população negra não participar dela, porque, até lá, poderemos ter morrido num quantativo inimaginável.

Por aqui, não passa por nenhum tipo de vitimismo. Em inícios do século XX, o projeto de eugenia brasileiro afirmava que, em menos de 100 anos, não haveria mais negros no Brasil. Como não foi exitoso o plano fascista e genocida, vivo com a impressão de que a atualização desse planejamento de extermínio está dando certo. A Polícia Militar tem nos matado ou encarcerado como se fôssemos bichos. Esse não pode ser o nosso destino.

Se aqueles e aquelas que dizem estar ao lado das classes trabalhadoras não se sensibilizam com Somália e com todas as formas de violência contra negras e negros, é fundamental que digam abertamente. Numa guerra, é sempre bom saber quem são os aliados e quem são os inimigos.

Je suis Somália.