Soluções para a cidade

437
Fanfarra durante ação no projeto Ocupa Escola. (Créditos: Divulgação)

Pensamos soluções para a cidade. Planejamos, mobilizamos e executamos ações que impactam a cidade. Variam as escalas, os alcances e o número de pessoas envolvidas. Estou pensando especificamente no campo da cultura, sem ignorar que outras áreas de atuação também fazem o mesmo. Tenho refletido recorrentemente sobre isso: em como a força de trabalho da cultura é subaproveitada na urgente reinvenção das cidades.

O que este imenso sistema (composto de festas populares, espetáculos, projetos culturais, escolas de arte, festivais, bandas, fanfarras e tantas outras formas e linguagens) poderia fazer pela melhoria da vida nas metrópoles, caso o poder público o encarasse como setor prioritário, adensando ações, dando escala a projetos, alocando recursos que garantissem continuidade e o melhor desempenho?

Existe um campo imenso de ações que se desenrolam historicamente sob o signo da descontinuidade, da dificuldade de financiamento, da precarização trabalhista e de um vazio de políticas públicas estruturantes. Um campo que mesmo assim impacta, realiza e, acredito, formou uma grande massa de trabalhadores da cultura que poderia ser melhor aproveitada pela sociedade em benefício dela mesma.

Enviar nove mil soldados é mesmice. Quero ver enviar nove mil artistas educadores. Quero ver construir 250 cinemas em favelas do Rio de Janeiro. Não um cinema piloto que segue piloto há quase uma década. Quantas lonas de circo público podemos espalhar pela cidade: 40, 50, 80? E se todas as 1.500 escolas municipais contratassem, ao longo do ano, um numero de atrações que desse conta desta escala, deste atendimento aos nossos 600 mil estudantes? E se 150 grupos artísticos realizassem residências artísticas em 150 escolas? E se criássemos 50 orquestras sinfônicas e 50 fanfarras? E se todos os grupos de capoeira da cidade também atuassem dentro das escolas públicas?

A verdade é que é hora de romper este ciclo histórico. Chega de fortunas para empreiteiras, elefantes brancos, estado concentrando renda, campo cultural e educacional em eterno perrengue! Chega!

Outro dia vi um elefante branco, uma dessas obras inacabadas de milhões e milhões de reais e pensei: com esse dinheiro, teríamos garantido um século de projetos impactantes nesta cidade e que vivem em plena insegurança. Um século! Mas a realidade de projetos desta natureza é outra. É cada ano um sufoco para garantir o ano seguinte, entremeado seguramente por um hiato de financiamento e muito desgaste para realizar sua missão.

Os projetos que consideramos grandes são migalhas diante das cifras recorrentes de nosso noticiário do investimento público e suas mazelas.

Não estou com isso solicitando que priorizemos os projetos grandes. Não. Estou sonhando com um reescalonamento do investimento em cultura, que propicie o fortalecimento de uma grande rede de iniciativas que consigam se desenvolver com mais segurança e desenvoltura, ao longo de uma década. Pelo menos, para que se prove que um quadro de violência urbana crescente pode e deve ser enfrentado por novas abordagens, que encarem a cultura e as artes como importantes tecnologias sociais de aprimoramento da vida coletiva.

Compartilhar
Artigo anteriorVI Conferência do Funk: MCs, DJs e barbeiros ocupam MAR
Próximo artigoSobre história e reincidência
Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. Coordena, desde 2015, o projeto Ocupa Escola, que atua em 25 escolas municipais do Rio de Janeiro levantando a bandeira "Toda escola é um centro cultural". É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"