Sobre educação e favelas

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Créditos: Bruno Kelly/Reuters

Apesar de as escolas terem reaberto nesta quinta, 28, os alunos da Rocinha não conseguiram sair de casa para assistir às aulas. Sem necessariamente pensar no Enem ou na falta de igualdade de oportunidades entre os alunos da Escola Parque e os alunos da Escola Municipal Desembargador Oscar Tenório, estamos pensando na liberdade tolhida de jovens e crianças do direito a estudar.

A escola não está preparada para acolher essas vitimas da violência. A Secretaria Municipal de Educação não suspendeu as provas, por exemplo. Os alunos são obrigados a ir à escola, colocando suas vidas em perigo, sob o pena de perder nota.

A escola é uma estrutura arcaica, um modelo semelhante ao trazido pelos jesuítas na catequização dos índios. Qual é o papel da educação na vida do cidadão senão prepará-lo para viver em sociedade? É gritante a necessidade de entender que o rendimento dos alunos está estreitamente ligado ao ambiente em que vivem. Sem qualquer acompanhamento psicológico, esses estudantes seguem dentro das paredes que formam as instituições de ensino.

Em condições desumanas, com esgoto a céu aberto, numa casa pequena, normalmente, sem a figura do “pai”, frequentemente dividida por muitas pessoas no calor do clima carioca, é difícil pensar. Imagine quando há tiroteios, em que parentes seus podem estar envolvidos ou mesmo se sofrem abordagens violentas da força militar sem ter qualquer envolvimento com o crime.

A polícia primeiro atira, depois pergunta quem morreu.
A polícia primeiro bate, depois procura por drogas.
Na favela, não é como no asfalto. Parece que lá nem Deus vê o que acontece.
A favela é também um projeto de segregação, de exclusão, marginalização de um povo, de uma classe e, muitas vezes, de uma cor.

A guerra no Rio é silenciada nos jornais e revistas, apresentando sempre a “Cidade Maravilhosa”. A Rocinha está tendo mais visibilidade por estar localizada na Zona Sul e abastecer a mão-de-obra do Leblon, Gávea, Ipanema. A madame não pode ficar sem manicure, sem porteiro, sem zelador… Esses seres humanos estão cerceados da sua liberdade de de ir e vir, presos em casa, sem energia elétrica – sim, no último final de semana não havia luz em parte da Rocinha.

Não bastasse o fato de os moradores não poderem sair para a rua, casas são invadidas, crianças revistadas violentamente, pessoas mortas injustamente. É com tudo isso que o morador da favela é obrigado a conviver para além das escravas oito (ou mais) horas de trabalho.

O Exército, assim como a Polícia, quando entra na favela não reconhece seres humanos. Eles atiram, agridem, arrombam a porta dos moradores, que não são criminosos. E os alunos das escolas públicas do Rio acabam reféns dessa falida e mal pensada estrutura de estado e governo, que planejam suas ações e não medem as consequências.