Se essa rua fosse minha

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Créditos: Rômulo Gomes

“Garota,
Vá no mercado, leve essa lista e siga como te ensinei: dos melhores, você traz o mais barato. Entendeu?
São dois V´s, hein, vai e volta no mesmo pé.”

Assim eram as palavras da minha mãe toda vez que me pedia para ir ao mercado. Eu me sentia super adulta, com 10 anos, fazendo as compras, especialmente, porque era dia do almoço de final de semana e a casa sempre ficava lotada.

Linguiça de paio, orelha de porco, carne seca no feijão temperado e aquela farofinha na manteiga. De sobremesa? Um pudim de leite de tirar qualquer pessoa da dieta. Na sala de casa, a gente já tinha juntado suas mesas, colocado o Martinho da Vila pra tocar na vitrola, seguido da voz da Alcione.

Claro que ninguém é de ferro e, na volta do supermercado, eu sempre parava pra conversar com alguma amiga e me perder ao ver as outras crianças jogando bola de gude bem na nossa rua de barro.
Eu sempre quis aprender a jogar bola de gude, mas nenhum menino ensinava e, logo eu, a mais tímida de todas, não iria pedir.

Se aquela rua fosse minha, ela nunca mais teria mudado. Ainda posso ouvir os gritos das crianças na rua de cima, berrando os números para o pique-esconde começar. Eu até tentei entrar na salada mista, mas era sempre café com leite.

Hoje, as coisas mudaram. Acordei mais uma vez com um fuzil na minha janela.

Um, não. Vários!
Já seguíamos no terceiro dia consecutivo sem tiros e, por alguns momentos, eu até me acostumei com o silêncio. Pude até ouvir os meninos da casa ao lado, de 5 e 6 anos, cantarem o funk do mais novo mc do momento: “Vem e brota aqui na base, vamos fazer sacanagem, então…”. Doguinha, um menino na faixa de seus 11 anos, já tem um casaco com seu nome e é referência para os outros menores da cidade inteira. “A novinha linda que mora aqui no lado; tá cheia de papim no Whatsapp…”. Na minha época, nem existia whatsapp, e fuzil a gente só via na TV – pelo menos, na minha rua era assim.

Abri a cortina do quarto e pelo vidro quebrado da janela, puder ver, antes mesmo do primeiro bocejo acontecer. Homens fardados com seu armamento pesado.

Pensei em convidá-los para um café, puxar a cadeira e contar como era nossa rua antes de tudo isso acontecer. Enquanto alguns deles entravam no meu quintal, eu podia me lembrar das vezes em que passei as férias brincando no balanço feito de pneu que havia ali.

Lembrei exatamente da horta no quintal, das galinhas e patos que minha vó criava. Lembrei de uma cerquinha de madeira rodeada de plantas por onde a gente comprava o leite da vacaria do sr. Joaquim – leite fresquinho para acompanhar o pão quentinho da padaria.

Pensei em convidar o oficial para entrar e sentar na minha mesa com toalha florida. Cogitei a possibilidade de convidá-lo, afinal de contas, se, todas as vezes, ele sempre chega sem ser convidado, que dessa vez seja diferente.

Olho no celular e me incluíram em um grupo. De repente, um convite: meus amigos de infância resolveram se reunir para lembrar os velhos momentos da adolescência, quando faziamos pipoca e víamos um filme aleatório.

Lembrei de quando nosso ir e vir era respeitado e nós podíamos ser apenas nós mesmos. Hoje, somos correspondentes de guerra. A rua não é mais nossa, nossas casas não são mais nossas. Não somos mais donos de nós mesmos.

Fechei a cortina, abaixei a música que tocava apenas na minha cabeça e me recolhi na parte mais segura da casa pra escrever esse texto. Afinal de contas, a vida continua e o que passou fica apenas na lembrança. Mas e quem não teve sequer o tempo de viver as coisas boas da vida?

Quem nem ao menos respirou a infância misturada com a poeira da rua sem asfalto? Como fica essa memória de coisas positivas? Se as crianças são o futuro da nação e elas não possuem bons parâmetros de mudanças, o que será do amanhã?

Hoje a noite é dia de filme, vamos nos reunir com as nossas lembranças, e eu apenas consigo pensar que, se essa rua fosse minha… Eu mandava ladrilhar, tirar o fuzil da rua para o nosso sonho passar e se realizar.