São Paulo: a Cracolândia nossa de cada dia

558

Acabo de atender mais uma moradora da Cracolândia – na verdade, bairro da Luz, região central da cidade de São Paulo. Trata-se daquela mesma área com arranha-céus, arquitetura límpida, ostentação imobiliária, mas que não olha para seus pés, sua gente. Cinza, como o comportamento mesquinho de seus dominantes – políticos e grandes empresários, que passam por cima do colorido de seu povo.

Esta senhora, de 56 anos, residente numa ocupação que existe entre tantas milhares da região da Luz, relata que o filho de 16 anos é mais um “zumbi” na legião de usuários de crack da região. E vai além: “o problema não está no uso e venda indiscriminados da pedra. Está em como o governo deixou chegar a esse ponto e quer esconder seus erros debaixo do tapete”.

Tenho de concordar. Resido em São Paulo há oito anos. E, desde que Kassab era prefeito, já presenciava o desejo pelo extermínio dos usuários através da repressão policial e de esconder algo que já era público e notório há mais de uma década. Sem trabalhos terapêuticos aparelhados, sem o mínimo de condições de atendimento digno tanto aos usuários, quanto aos moradores e aos trabalhadores da região, a Prefeitura e o governo do Estado deixam claro como se aplica a política local de drogas, ignorando todo um trabalho feito por profissionais que enxergam além da força do cacetete e das bombas.

No frio de 16 graus que fazia na cidade cinza em 23 de maio, o sr. prefeito de São Paulo, em meio a uma entrevista a jornalistas a duas quadras da Rua Helvétia, foi informado da demolição das paredes de uma pensão por ordem da própria Prefeitura, ferindo três pessoas que ainda estavam dentro do imóvel. O proprietário não havia sido notificado da desapropriação e sequencial demolição.

Ou seja, enquanto João Dória Jr. falava à imprensa sobre uma possível revitalização da Luz, também passava com trator em cima de concreto armado e gente. E como qualquer criminoso não querendo ser pego em flagrante delito, entrou no carro, acelerou e sumiu do local. O nome do crime? Improbidade administrativa, constante no Código Civil. O que o Estado fez? Enviou Tropa de Choque e Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam) para conter a revolta popular…

É preciso analisar a barbárie na Cracolândia não apenas sob o olhar da falta de recursos públicos e atendimento adequado a população, mas principalmente sob o enfoque da especulação imobiliária. A 700 m da rua Helvétia, funciona uma das casas de espetáculos mais luxuosas da cidade, a Sala São Paulo. Criada para ser uma sala de concertos sinfônicos, agrega entre seus frequentadores a nata da burguesia paulistana – entre eles, o próprio sr. Dória.

Não há moradores do entorno ou oriundos das periferias da cidade entre seu público, mesmo em espetáculos gratuitos que ocorrem aos domingos. Além disso, a revitalização proposta pelo prefeito João Dória nada mais é que a desapropriação, demolição e privatização sequencial de espaços públicos – e aí se concentra a especulação imobiliária, em torno de museus e espaços histórico-culturais que, através de políticas de privatização, mais uma vez atropelam os anseios da comunidade local por escolas, postos de saúde bem aparelhados, programas sociais que sejam valorizados e respeitados.

Aliás, diga-se de passagem, as Cracolândia existem nas periferias há muitos anos mas sem a devida atenção dos ricos. O extermínio, nessas regiões, fica sob o encargo do esquecimento. A Cracolândia não é uma só, e não é única. Ela nada mais é que o resultado de políticas sem nenhuma intenção de atender de fato a população que dela necessita, exceto pela política do cacetete e do desabamento. A Cracolândia é a nossa tragédia social cotidiana, onde espalha-se de maneira irremediável o público que, mais uma vez, tem suas vidas e histórias aniquiladas pelo crack e pela falta de políticas públicas decentes.

Compartilhar
Artigo anteriorPeça teatral estreia no Morro do Turano
Próximo artigoUma luta silenciosa
Assistente Social formada pela UFF. Radicada em São Paulo há cerca de 8 anos, mas se tudo der certo retornando para o Rio de Janeiro. Nascida e criada em favelas cariocas. Sai delas, mas elas jamais sairão de mim!