Rua Joaquim Silva resiste na cultura alternativa

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Bebel du Guetto e Big Papo Reto (Créditos: Tiago Nascimento/ANF)

Do final da década de 1990 até aproximadamente 2013, era uma referência em diversão na noite carioca. Todos os dias, a Joaquim Silva, no coração da Lapa, ficava cheia, e os bares e camelôs faturavam alto com bebidas e comidas. Quem também lucrava eram os artesãos, que sempre estavam de passagem por ali em meio a suas viagens pelo mundo.

Anônimos e famosos interagiam pela madrugada afora. Na Rua Joaquim Silva, se vivia a democratização da cultura e da espontaneidade artística com pouco ou nenhum dinheiro. Quem não se lembra da Batalha do Real, bem embaixo dos Arcos? E do Rio Maracatu, que depois do ensaio nos Arcos sempre passava por lá em cortejo, antes de seguir em direção a Glória?

Mas nem tudo eram flores. Para ficar ali tinha que ter disciplina. Era muito fácil haver brigas com alguém que não estivesse acostumado com tanta liberdade e atitude conquistada por gerações. Quando a rua estava muito cheia, a viatura da PM jogava spray de pimenta na multidão para abrir passagem, saindo sempre eram vaiados. A repressão se intensificou, e muitas matérias da grande mídia também serviram para minar a relação com a opinião pública e fortalecer o discurso de esvaziamento da Lapa (que, felizmente, não prevaleceu).

Em 2015, a privatização da segurança pública no local através de uma parceria entre a Fecomercio e o Governo do Estado resultou no Lapa Presente e na diminuição de roubos a turista. Mas aumentou também a discriminação e constrangimentos raciais e sociais na abordagem dos agentes, que não são plenamente capacitados para o patrulhamento – nem todos passaram por concurso público ou treinamento policial de qualquer espécie. O programa divide opiniões entre os frequentadores da região, que muitas vezes são levados para a delegacia por motivos torpes e de forma truculenta.

Mesmo nesse cenário caótico, a Rua Joaquim Silva resiste. Uma das formas de seguir na luta é através de intervenções colaborativas, como a Radiola Leoa Dourada. A ação é liderada pela MC Bebel Du Guetto, que conta 15 anos de hip hop e há quatro ocupa a rua de forma colaborativa.

Bebel Du Ghetto é uma maranhense de corpo e alma. A saudade da sua terra e a influência de sua mãe, que também organizava uma Radiola no Maranhão, a inspiram a realizar o projeto ao lado de amigos. MC Papo Reto é um dos apresentadores da Radiola. Mr. Oberdan, que fortalece com o equipamento de som, é DJ e grafiteiro, e o DJ Cândido chega junto com sua influência paulista. As rappers Sista Wolff e Negra Rê integram o bonde feminino, entre outros nomes do hip hop carioca que, a cada edição, fazem da Radiola Leoa Dourada um grande sucesso.

Esta ocupação é uma chama cultivada com muito carinho. A Radiola, que é um sound system, faz uma referência direta à cultura maranhense urbana, regada de reggae roots, ragga, rap e grafite. A Radiola Leoa Dourada é fundamental para a manutenção da arte de rua e da livre iniciativa cultural, servindo ainda de palco para novos e consagrados nomes da música carioca, além de formação de público para consumir produtos dos empreendedores locais.

Todos os que viveram a Joaquim Silva nos grandes tempos sabem que, se ela ressurgir das cinzas, a Lapa volta a ser o maior polo de artistas de rua das noites cariocas.