Rio ou Choro de Janeiro

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Protesto pela paz e contra a violência policial mobiliza Complexo do Alemão (Créditos: Reprodução Internet)

Quando fui convidado para ser colunista da Agência de Notícias de Favelas, vim pensando em abordar temas que tivessem relação com a área que atuo, que é a cultura. Sempre achei que a favela já tem tanta abordagem negativa que tentaria falar de coisas mais positivas e pra cima. Mas é muito difícil para alguém com um mínimo de amor ao próximo ignorar todos os problemas e dramas que os moradores de favela enfrentam diariamente – problemas dos mais essenciais, como saneamento básico, saúde, educação, lazer e, claro, segurança.

Em praticamente todas as favelas da cidade, os moradores são reféns ou da violência do Estado ou de traficantes e milicianos. A população é sempre refém. Mas, para a maioria da sociedade, os moradores de favelas “merecem” passar por essas situações porque moram num lugar onde não pagam aluguel e “se quisessem” iriam embora, ou são coniventes e cúmplices das quadrilhas que comandam o comércio de drogas.

A mídia oficial é grande responsável por formar esse tipo de pensamento retrógrado e preconceituoso. Pregam insistentemente que essas favelas têm que ser ocupadas militarmente. Essa é a solução de sempre. Que se danem as denúncias de violação de direitos humanos que vários moradores fizeram e fazem nesses dias de guerra de facções. O que importa é deixar o povo favelado ali, cercado e sem possibilidades de almejar um futuro melhor.

A sociedade (leia-se “classe média branca”) não sente a menor empatia pelo povo favelado. Pode morrer criança baleada em escola ou brincando na porta de casa. Pode ser mãe de família que é arrastada por viatura da polícia ou morta com coronhada de PM. Podem ser quatro jovens assassinados pelo Estado com mais de 100 tiros. A solidariedade com o povo preto, favelado e de periferia é inexistente.

E a gente vive numa cidade onde a imprensa só aborda as favelas mais conhecidas como Rocinha, Jacarezinho, Vidigal, Jacaré, Complexo do Alemão. Nas zonas mais afastadas do Centro, como Zona Oeste e Baixada, a maioria nem imagina como os moradores de lá vivem. Favelas em lugares como Santa Cruz ou Baixada Fluminense não dão Ibope.

Enquanto não acharmos uma solução, vamos continuar chorando a morte de mais e mais pessoas. Sejam traficantes, policiais, crianças, mulheres, homens…

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Ativista e produtor cultural, trabalha na área musical desde 1990. Realiza com coletivos várias ocupações político culturais pela cidade, como Ocupa Lapa, O Passeio é Público , Ocupa Marina da Glória, e Ocupa MinC RJ.