Quem são os youtubers da periferia?

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Raphael Vicente é Youtuber do Complexo da Maré. Créditos: Divulgação

Se você nasceu depois de 1990, é grande a chance de já ter ouvido falar na palavra “youtuber”. Estes usuários da plataforma on-line YouTube mantêm canais com vídeos produzidos por eles mesmos e são os grandes formadores de opinião dessa geração. Sem qualquer custo, com a ajuda de amigos e uma câmera de celular nas mãos, eles ganham notoriedade na web e fazem parte de um fenômeno que ganha cada vez mais espaço não só no mundo, mas também nas favelas e regiões periféricas.

Com mais de um bilhão de usuários, o YouTube é um dos gigantes da internet dos novos tempos. Mas, diferente do monopólio de conteúdo conhecido pelas gerações anteriores, alguns desses consumidores de conteúdo resolveram usar as ferramentas digitais para dar volume a vozes então pouco ouvidas e criar algo novo. O piauiense Whindersson Nunes é hoje o youtuber mais popular do Brasil: ele tem mais de 13 milhões de seguidores. “A internet é um veículo que facilitou esse tipo de exposição, mas isso não é de agora. Por mais que hoje as pessoas se exponham muito mais ao criarem seu próprio show, a web apenas potencializou isso”, opina a youtuber e estudante de Mídias Sociais Camila Vitória, 21, de Duque de Caxias.

O universo youtuber conta, principalmente, com produções caseiras. Os vídeos costumam ser gravados na sala ou no quarto de casa com custo zero. Isso facilita o acesso ao formato para muitos jovens periféricos. “Eu gravo com uma câmera que uma amiga me emprestou. O resto do equipamento eu fui comprando aos poucos”, explica Raphael Vicente, 16, morador do Complexo da Maré e criador do canal de humor Nada com Nada.

O improviso e as gambiarras também são características comuns entre eles. “As caixas de iluminação que uso nos vídeos foram feitas com papelão e bastante esforço. Aprendi a fazer num tutorial que assisti no próprio YouTube”, revela Samuel Santos, 20, do canal Samocréia. Morador de Nova Iguaçu, ele costuma compartilhar pensamentos e vivências próprias. Assuntos como racismo e relacionamentos estão entre os vídeos mais assistidos. “A ideia é ajudar as pessoas a enxergar por uma perspectiva diferente até o fim do vídeo”, pontua.

Além dos temas pessoais, a representatividade parece ser uma preocupação comum entre os youtubers da periferia. É o que explica Isys Maciel, 17, do Complexo da Penha, sobre a motivação para produzir seus vídeos:

– O meu canal é sobre Ciência e Tecnologia. Eu sou a única aluna do Ensino Médio da Faetec que possui uma bolsa de iniciação científica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ideia do canal surge para mostrar a outros jovens moradores da periferia que tudo é possível quando temos acesso às oportunidades.

Os youtubers garantem que a receptividade de suas comunidades é grande e que isso também os motiva a continuar. “Eu moro na Baixada Fluminense e tem muita gente que se identifica. Quando me encontram por aqui, me dizem com certo orgulho: ‘Nossa, eu te vi na internet e eu moro perto de você’. É muito legal poder alcançar essas pessoas”, finaliza Camila.