Quando nasce um favelado?

Um tributo de valorização da nossa origem.

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Um favelado – e aqui falo com orgulho da expressão, fugindo totalmente da imagem negativa com que alguns, na favela e no asfalto, usam o termo – não nasce a partir do parto de uma mulher suburbana. Ser favelado vai além do local onde você deu seus primeiros passos.

O nascimento de um favelado ocorre quando ele consegue projetar, para dentro e fora de si, um sentimento de pertencimento à sua comunidade. O favelado nasce quando consegue enxergar aquele pedaço de terra, excluído política e socialmente, como seu ponto de origem. O favelado vem à vida quando a favela se torna seu ponto de partida para pensar e explorar o mundo tanto na esfera geográfica quanto em seu posicionamento e senso crítico junto à sociedade e suas mazelas. Acreditem: isto pode demorar a acontecer.

Trato do tema com certo conhecimento de causa. Ainda que há mais de 28 anos seja morador da favela do Jacarezinho, a segunda maior da cidade e uma das regiões com menor Índice de Desenvolvimento Humano do Rio, demorei a entender este tema. Poderia dizer, sem medo de errar, que virei favelado nos últimos cinco anos. Isso ocorreu, ironicamente, quando eu já estava formado, trabalhando em um grande escritório e estabilizado financeiramente. Como pude demorar tanto? Respondo: influência e contaminação social, mutações voluntárias ou não ao tentar me encaixar em um mundo que ignora a favela e nos faz negar nossas origens. Eu acredito que você já sabe, caro leitor, mas não custa reafirmar: não é fácil ser favelado no Brasil.

Aconteceu comigo e acontece com favelados de periferias do país inteiro. Todos nós somos obrigados a sair ou nos afastar de nossas vielas para conseguir estudar e trabalhar. Isso nos coloca em contato com outros círculos sociais, o que é muito agregador mas também traz um grande problema: a necessidade de se adaptar a essa “nova sociedade”, um ambiente totalmente diferente do que vivemos no morro, que funciona como um organismo social independente. É importante notar que isso costuma ocorrer nos primeiros anos da juventude, quando estamos formando nossa consciência político-social. Essa transformação pode fazer com que esqueçamos nossas origens, e, bingo!, perdemos um favelado.

Seja no ambiente acadêmico, no almoço do escritório ou no happy hour da firma, dificilmente a favela é tema dos papos que ocorrem nestes locais. Assim, ela vai sumindo do nosso radar – isso sem não antes já ter sumido do nosso comprovante de residência. Que favelado nunca mentiu o endereço ao elaborar um currículo, preencher um cadastro ou até mesmo conhecer alguém no aplicativo de relacionamento Tinder? Isso ocorre o tempo todo, e os motivos não são poucos.

Porém, muito além de não mentir o endereço para um garota (o) que se acaba de conhecer, o fundamental é não mentir para si mesmo quanto ao endereço de seu ponto de partida. Não importa a projeção social, financeira ou profissional que se alcance. É necessário olhar para trás e não desapegar de suas origens, bradar a favela e construir seu senso crítico sobre o mundo a partir de uma perspectiva de quem nasce no e do morro.

Além de toda importância de ter um favelado ajudando a pensar o mundo a partir de sua quebrada, saiba que a favela precisa de você. Seus conterrâneos precisam olhar para o lado e ver em você, que é um deles, o irmão que cresceu na vida, alguém que foi, venceu e voltou. Representatividade importa. Por mais que você saia da favela, não deixe a favela sair de você. Vá, mas volte. É com a sua fala, o seu pensamento, o seu senso crítico, a sua vivência de quem descobriu o mundo a partir do morro e sua reiterada defesa do nosso chão que iremos fazer ecoar o poema em forma de música do mestre Bezerra da Silva: “A favela, nunca foi reduto de marginal, ela só tem gente humilde marginalizada, e essa verdade não sai no jornal, a favela é um problema social”.

Quem não sabe de onde veio não sabe para onde vai.

 

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Advogado criminalista, favelado e pai do Arthur. Amante de livros, viagens e boas histórias para ouvir e contar. Apaixonado pelo Flamengo, Jacarezinho e Estação Primeira de Mangueira. Colaborador da ANF desde Fevereiro de 2017.