Por uma universidade menos elitista

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Créditos: Antoninho Perri

Em decisão anunciada ontem, 30, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma das melhores do país, aprovou a adoção do sistema de cotas para negros, pardos, indígenas e estudantes de escolas públicas. A política vai ser implementada a partir do vestibular 2019 e prevê reserva de 50% das vagas para alunos da rede pública de ensino.

A resolução da Unicamp, cujo percentual de alunos de escola pública já ultrapassa os 50% desde o ano passado, é de uma importância imensa para a democratização real do acesso ao ensino superior por negros e pobres, parcela da população majoritária e historicamente excluída de melhores oportunidades pelas barreiras e desafios impostos por uma educação de base – infelizmente – sucateada. Trata-se de um sopro de esperança no desmonte do acesso ao ensino superior proposto por governantes reacionários que claramente se opõem ao “empretecimento” de um espaço ocupado exclusivamente pela burguesia durante décadas.

Quase 15 anos depois da implantação do sistema de cotas e também do Programa Universidade Para Todos (Prouni), que oferece bolsas integrais e parciais a alunos de escolas públicas nas universidades privadas, os resultados são visíveis. Jamais na história deste país vimos tantos graduandos, mestres e doutores pretos e favelados quanto hoje. Ter o Exame Nacional do Ensino Médio como ferramenta de admissão em diversas universidades estaduais e federais também ampliou o leque de possibilidades para os periféricos por questões aparentemente simples: hoje, é possível se candidatar a vagas em diversas instituições fazendo uma única prova, o que significa menos gastos financeiros com deslocamento, por exemplo, na busca pela tão sonhada vaga na graduação.

Os opositores mais moderados dos programas de democratização do acesso ao ensino superior afirmam que era como tapar o sol com a peneira, já que a grande barreira à universidade é a educação de má qualidade dos Ensinos Fundamental e Médio oferecidos na rede pública. Entretanto, é importante lembrar a frase do grande Herbert de Souza, o Betinho: quem tem fome tem pressa. Quem tem sede de conhecimento e necessidade de formação urgente para buscar melhores condições de vida também. Sem cotas e sem Prouni, quantas décadas precisaríamos esperar para que os jovens pudessem explorar toda a sua potência? Quantas gerações mais teriam sido perdidas?

Independente de filiação ou orientação política, ansiar por uma educação universal, capaz de contemplar todos os segmentos da sociedade, é acreditar no potencial do país. Tomar parte nesta luta é fundamentalmente batalhar pela igualdade do nosso povo.

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Com o texto de hoje, falando sobre um assunto tão caro a uma filha de nordestinos e ex-bolsista integral do Prouni, encerro meu ciclo de colunas semanais na Agência de Notícias das Favelas. Os tempos são difíceis e as notícias não param, então, seguirei por aqui exclusivamente na apuração de denúncias e iniciativas importantes para milhões de favelados não apenas da cidade onde nasci. Cedo espaço para o grande pensador e fazedor de cultura Alexandre Santini, que faz hoje um trabalho incrível no resgate de um importante aparelho público cultural de Niterói, o Teatro Popular Oscar Niemeyer, e a partir da semana que vem ocupa meu lugar das quartas-feiras. Muita coisa boa ainda há de vir!