Por uma nova logística da revolta

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Um imenso e indisfarçável mal-estar. Uma sensação sufocante de que assistimos o prosperar irrefreável da estupidez.
A ignorância que vira decreto, que vira grande cagada coletiva, bancada com dinheiro público. Um dia é Dória, outro dia é Trump, no outro é Temer.
As instituições, que deveriam concretizar valores, são a própria negação de si.
O roteiro de farsa e as interpretações hipernaturalistas criam uma estética estranha, incômoda, sem empatia.
As más notícias são diárias. A desmobilização do contragolpe é amarga e desmotivadora.
Aviões despencam com supremos ministros e sem espanto.
Alguns políticos e alguns ricaços são presos e humilhados, mas outros passam batido e comandam a República dos Teleguiados.
O tom contido do jornalismo impresso e televisivo, o tom contido dos comentaristas políticos, o tom comedido das celebridades e dos artistas, nossa falta de ousadia e coragem, tudo isso forjou uma cidadania contida, com espasmódicas exceções.
Nosso atávico de desejo por uma função pública que nos garanta remuneração segura pelo resto da vida. Nossos muitos séculos de escravidão, nossos muitos séculos de colônia, nossa mentalidade insegura, nossa falta de participação na vida pública… Tudo isso forjou a construção de uma república pervertida, onde o interesse público é engolido pelo interesse privado de uma casta mafiosa.
Precisamos dar uma pausa agora. E olhar a sociedade que temos. Ninguém tem direito de ficar orgulhoso com esta obra coletiva.
A Sociedade Civil precisa ser, para a classe política, o que as forças da natureza são para o espaço físico. Ser tempestade, terremoto, avalanche, tsunami… forças enfim que desestruturam a geografia já cristalizada e obrigam a reinvenção do espaço.
Esse governo é fraco. Fraquíssimo. Pura máfia sem empatia popular. O cassino dessa máfia é o orçamento federal.
Foram todos denunciados. A palavra de Roberto Jefferson destruiu o PT, mas a palavra do executivo da Odebrecht não destruiu, ainda, o Romero Jucá ou os Oito Odiados do nosso planalto.
Mas, embora o nosso rancor com esse quadro devastador cresça a cada dia, estamos sem conseguir transformar isso em ação coletiva e pressão.
Por uma nova logística da Revolta.
Mas o que seria Revolta? Uma demonstração coletiva de insatisfação bruta com o uso da coisa pública. Um série de estratagemas visando o xeque-mate em um governo impopular e ilegítimo.
O desafio é encontrar novas formas de mobilizar e pressionar.
A Sociedade Civil é diversa demais, já a classe política, que dela deveria ser um extrato qualificado, transformou-se num monolito de homens ricos propineiros e articuladores de grandes negócios via capital público.
A Política Brasileira é mesquinha, falta-lhe grandeza humana. As entranhas escancaradas da política levam-nos a uma constatação e a um dilema.
Constatação: é preciso reinventar a política. Dilema: ainda não sabemos como.
Por uma nova Logística da Revolta, o que você propõe?
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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. Coordena, desde 2015, o projeto Ocupa Escola, que atua em 25 escolas municipais do Rio de Janeiro levantando a bandeira "Toda escola é um centro cultural". É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"