Polícia reprime evento cultural na Arena Dicró

13710
Membro do Passinho Carioca durante apresentação em escola municipal no ano de 2016. (Créditos: Divulgação)

O que era pra ser um domingo de alegria, dança e cultura na Arena Carioca Dicró virou pânico e tristeza. O evento Matinê do Passinho Carioca, que encerrava sua temporada na Arena, foi cancelado por ordem de policiais militares. Produtores e frequentadores afirmam que não havia qualquer justificativa ou mandado para a ação.

O espaço cultural da Prefeitura do Rio no Parque Ary Barroso, na Penha, estava de portões abertos para crianças, jovens e familiares. O evento da Matinê do Passinho Carioca seria o auge da celebração do segundo ano de trabalho do projeto após a temporada de quatro semanas na casa. Tudo seguia tranquilamente. Entre as atrações do dia, estavam a b-girl Emily, de 9 anos, Alinne, que integra o corpo de baile da cantora Anitta, Reis do Movimento, Família do Passinho, Titãs do Passinho e Mister Passinho, entre outros. O público presente era composto por moradores de diversas favelas.

Mas, segundo relatos, agentes da Polícia Militar entraram na Arena Carioca Dicró e, de forma truculenta, destrataram, humilharam e ameaçaram os produtores, inclusive, de prisão. Sem qualquer justificativa, ordenaram o encerramento do evento, que ainda recebia dançarinos no palco. “Não entendemos por que encerraram nosso evento. Ainda não tivemos uma resposta final. Independente de qualquer coisa, eles precisam nos dizer o motivo, se é que, de fato, houve um motivo cabível. Ainda estou muito abalado”, afirma o produtor do Passinho Carioca Thiago de Paula.

A ação revoltou quem estava na Arena Dicró, levando aos prantos os artistas presentes e as muitas crianças que estavam na plateia.

“Engraçado, o governo não faz pela comunidade e quando alguém faz eles vem atrapalhar?”, questionou um dos frequentadores no Facebook, demonstrando sua indignação. “Quando a gente se vê impotente, de mãos atadas, dentro de um espaço cultural da própria Prefeitura, como a Arena Dicró, onde a Polícia chega e faz o que ela quer, a gente se sente muito fraco, meio que apaga um pouco o brilho dos olhos. É como se toda nossa luta não adiantasse pra nada diante de uma estrutura de poder que esmaga a gente”, completa outra pessoa presente no evento, que preferiu não se identificar.

Numa semana em que uma chacina matou oficialmente sete jovens em um baile funk na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, o preconceito contra o gênero parece ser o cerne da questão. “O funk segue sofrendo preconceito, sendo hostilizado. Nosso trabalho vai pela luta do funk, da juventude, de uma sociedade melhor, que consiste em acreditar que é possível uma modificação. A gente resiste todos os dias pela luta dos nossos sonhos”, resume Thiago.

A assessoria de imprensa da Unidade de Polícia Pacificadora afirmou que ainda está apurando o ocorrido na Arena Dicró. Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria Municipal de Cultura não se pronunciou sobre o caso.

 

Baile funk também cancelado na Vila Olímpica do Alemão

No mesmo dia em que o evento da Arena Carioca Dicró foi encerrado de forma arbitrária pela polícia, o Baile das Antigas, que ia acontecer no Complexo do Alemão, acabou cancelado por falta de segurança.

Moradores relataram nas redes sociais que, na manhã de domingo, agentes da PM invadiram a Vila Olímpica Carlos Castilho, onde o evento aconteceria à tarde, e efetuaram diversos disparos, levando pânico às famílias que aproveitavam a área de lazer. O clima ficou tenso na região. O Baile das Antigas, que, além de exaltar os clássicos do funk, arrecada alimentos e distribui cestas básicas para a comunidade, já havia sido alvo de uma controversa operação de repressão por parte da Polícia Militar no ano passado.

Em nota, o comando da UPP Nova Brasília informa que “policiais que atuavam em apoio a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em uma escola ao lado da Vila Olímpica Carlos Castilho, foram atacados a tiros” e que “pelo bem da segurança dos moradores e frequentadores do local, o comando considerou mais adequada a suspensão das atividades”. A corporação afirma ainda que “o evento também não possuía autorização da UPP local para sua realização”.