Pokémon GO: a vida nada fácil dos jogadores de favela

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Moradores de favela relatam dificuldades para jogar Pokémon GO (Créditos: Reprodução internet)

 

Recém-lançado no Brasil, o jogo para celular Pokémon GO repete o sucesso mundial e é uma febre entre crianças e jovens no país. Mas nem todos os usuários podem livremente caçar seus pokémons (veja o glossário abaixo). Moradores de favelas relatam dificuldades para jogar: barreiras tecnológicas e segurança são alguns dos problemas apontados.

Pokémon GO é inspirado no desenho animado Pokémon, exibido no Brasil desde o fim dos anos 1990. Lançado pela Niantic, chegou ao Brasil em 03 de agosto e já é considerado o jogo para celular mais lucrativo da história, arrecadando US$200 milhões apenas no primeiro mês. Pokémon GO está disponível para download gratuito nos sistemas operacionais Android e iOS. O game transforma as cidades em um verdadeiro campo de realidade virtual, onde seus jogadores precisam se deslocar fisicamente de um ponto a outro na caça dos monstrinhos.

Aí reside o primeiro problema dos jogadores de Pokémon GO que estão nas favelas. O jogo utiliza dados de GPS e a base de mapas do Google para concluir etapas e seguir com as fases. Entretanto, mesmo sendo o lar de mais de 2 milhões de cariocas, apenas 0,001% da área das mais de mil favelas do Rio é mapeado pelo Google Maps. Isso significa que as áreas de comunidade no jogo são substituídas por áreas verdes ou borradas no mapa, impedindo os jogadores dessas regiões de realizarem suas capturas. O operador de telemarketing Tomas Jefferson, 21 anos, ficou decepcionado: “Quem sofre com isso é quem mora nas favelas, né? Precisamos nos deslocar até o Centro ou até a Zona Sul para ter um número maior de pokémons e pokestops”, afirma o morador da Favela do Mandela.

Quando favelas e bairros da periferia são incluídos na base de dados do aplicativo, acabam sendo pouco aproveitados. Um problema parecido havia sido relatado em bairros negros dos Estados Unidos, onde os usuários alegam haver uma oferta muito menor de pokémons em relação a outras áreas da cidade. “No Complexo do Alemão, só tem um ginásio e duas pokestops. Eu tenho que andar muito para encontrar. Trabalho em Ipanema, e lá, a cada 20 passos, tem pokestop e vários pokémons”, conta o jornalista de dados e morador do Complexo do Alemão Eloi Leones. Ele discorda, porém, que exista um mero desinteresse das empresas envolvidas. “Acho que tem uma questão muito mais importante aí, que é o quanto as pessoas da favela são engajadas com tecnologia ou não”.

Além das barreiras tecnológicas, a insegurança nas regiões periféricas da cidade também atrapalha os jogadores. “Aqui em Coelho Neto tem uma quantidade razoável de pokestops. Mas eu não me sinto seguro. Eu só posso jogar de dia, porque à noite eu corro risco de ser roubado. Houve também o caso dos policiais que pararam dois garotos que jogavam Pokémon GO perto de uma delegacia. Infelizmente, eu sou um alvo fácil”, explica o estudante da UFRRJ Victor Costa, de 20 anos.

 

Glossário Pokémon GO

Caçar pokémon: Jogar o game, pois o grande objetivo é capturar o maior número possível de monstros que se encontram espalhados em diferentes espaços da cidade e precisam ser encontrados.

Pokestops: Locais onde os jogadores recarregam suas bolas de capturar monstros.

Ginásios: Locais onde jogadores e monstros se enfrentam.

 

Publicado na edição de Setembro/2016 do Jornal A Voz da Favela