Pedagogia da integração: Vigário Geral, Rocinha e a roda da vida

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Vista da roda gigante do Rock in Rio. (Créditos: Caio Ferraz / ANF)

Nos últimos dias 17 e 21, no Rock In Rio, acompanhei de perto a saga da jovem Mariana*, 24, moradora da Rocinha. Na madrugada do dia 17, os traficantes começaram uma guerra interna pelo controle da favela. Mariana conseguiu sair da favela diretamente para um dos maiores festivais de música do mundo. Ela tentou se divertir, mas, deixando dois filhos e a mãe no alto do morro, não conseguiu. Tentamos ir à roda gigante do Rock In Rio, mas devido à lotação, foi impossível.

Convidei-a para voltar comigo ao Rock In Rio no dia 21 e ela aceitou. Dessa vez, para ir à roda gigante seguimos o protocolo de imprensa, agendando previamente com a assessoria do Rock In Rio. Tudo combinado, faltava encontrar Mariana. Assim como a maior favela da América Latina, ela também estava tensa ontem. A guerra, infelizmente, não deu trégua e parece que não vai dar tão cedo. A cabeça e o espírito da jovem mãe estava na Rocinha. Ela tentou se divertir enquanto a roda girava, mas a guerra que acontece no morro, em que ela mora, não permitiu.

Eu, que vivi meus primeiros 25 anos de vida a mesma angústia que muitas Marianas desse desterrado solo brasileiro têm vivido, me vejo, então, num estranho desconforto. Lembro também que, logo após a chacina da favela de Vigário Geral, ocorrida em 1993, eu coordenei um dos mais audaciosos planos de trégua entre duas facções: Comando Vermelho e Terceiro Comando.

Por mais de oito anos, as favelas de Vigário Geral e Parada de Lucas viveram sem confrontos. A receita? Diálogo e negociação entre os dois lados, massivo investimento em saúde, educação, arte, cultura e urbanização nas duas favelas – tudo isso sem a interferência da Polícia e do Exército.

Quantas vezes o Estado e as organizações não-governamentais me convidaram para debater sobre nossa tática pedagógica da integração? Nenhuma! Em meio ao caos que vivemos, cabe dizer que, no Brasil, eles não respeitam ou sequer se interessam por quem fez e faz história.

Mariana, eu sei que a roda gigante da vida não tem o glamour do parque de diversões, nem a paz do Rock In Rio em noites de música, mas saiba que o favelado que habita em mim sempre vai lhe estender as mãos e mostrar que o melhor caminho é construir uma roda de amigos que nos faça perceber que a vida e o mundo dão voltas. A pessoas como nós cabe apenas mudar o mundo através da cultura, da arte e da educação.