Para não dizer que não falei das flores

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Créditos: Helvio Romero / Estadão

“Queria saber como faz para distribuir jornal. É bacana o projeto de vocês, queria saber mais, pra ver se posso participar, se me ajuda. Ah… Legal. O meu endereço? Não vai dar. Eu sou morador de rua. Semana que vem eu pego alguns exemplares. Muito obrigada.”

Há situações diversas capazes de te manter vivo: casa, trabalho, estudo, rotina, cotidiano mecânico. Outras situações te fazem parar. Desligar. Suspender. Modo ser humano? Aquele detentor de empatia e sentimento, feito de carne e osso? Levei alguns minutos para processar o que tinha acabado de acontecer. Ouvir Fábio dizer que mora na rua não me fez reconhecer imediatamente meus privilégios, e sim, imaginar em que sociedade cruel e doentia nós vivemos. Por que aceitamos o modelo capitalista que perpassa o direito de ser assistido por um Estado ou quem quer que seja? Por que permitimos que alguém não tenha o direito a proteção, privacidade, um teto apenas?

Nesta noite, pensei como e onde Fábio estaria dormindo; com que roupa, se estaria agasalhado ou não. O tempo esfriou, até choveu. Estaria Fábio com gripe? Ou com dor de cabeça pelo batuque das manifestações? Eu sinto enxaqueca a troco de nada e por tudo. Imagina como seria se a minha realidade fosse não saber quanto tempo demoraria até minha próxima refeição. Terá Fábio almoçado hoje?

Eu nem o ofereci um prato de comida. Falhei como ser humano ao apenas continuar imóvel e aceitar que ele fosse embora. Fui egoísta ao preferir permanecer na inércia do que dividir o que tinha. Fábio foi educadíssimo e muito gentil. Falava baixo e me ouvia atentamente, com um respeito que vi poucas vezes.

Prometeu voltar para pegar jornal. Em silêncio, apenas reconheci minha insignificância, apesar de não mais inércia. Da próxima vez, falarei-lhe das flores e de todas as reflexões que me fez despertar. A partir de hoje, meu trabalho não vai gerar lucro nem lacre. Minha meta é um lar.