Pais de quem?

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Uma paternidade dividida em três momentos.
A foto, os 10 anos e os 15 anos.

Uma foto aos 2 anos de idade, a escolha de conhecê-lo aos 10 anos e a segunda rejeição aos 15 anos – um dia antes de sua partida definitiva.

Nos intervalos, eu segui com minha mãe tentando driblar a correria do trabalho, a presença na escola, as minhas festinhas e as tarefas domésticas. Suas dores eram sempre afogadas no álcool. Anos de alcoolismo e eu sempre soube o motivo. Naquela época, ela fazia parte dos 23% dos lares da favela chefiados por mulheres, estatística que hoje subiu para 44%.

Embora esse texto seja sobre pais, eu me pergunto o quanto as coisas poderiam ser diferentes se houvesse a figura efetiva de um na minha vida e na vida de tantas pessoas. Não me entendam mal, dona Ivani, minha mãe, juntamente com minha avó Jesuína, fizeram um trabalho brilhante. Mas um fato importante a se destacar é que foi tudo pesado demais.

No meio de toda essa memória afetiva em busca de uma representatividade paterna, lembrei de duas pessoas: um menó e o João.

– E aí, filhão?

Era um dia de sol e a música na favela estava ecoando dentro de cada cômodo das casas cruas sem reboco. Parecia um Dia dos Pais desses, onde o frango no forno ou a cerveja no copo se confundem com a voz do Zeca Pagodinho que saía do rádio.

Ouvi sem ver um rosto, mas ali eu já entendia que o que em casa não se ouvia, no crime se acolhia. Não era o dialógo entre um filho e um pai. Era a história de um menó dando um passo errado, em que a falta de paternidade era um dos pontos que mais doía.

A gente sabe e entende que, embora quase tudo esteja perdido, temos sempre os “Joãos” que seguem seus caminhos e não desistem. Em toda favela existe um João, que vez ou outra, faz a gente acreditar que toda história pode ter um olhar diferente.

Cinco filhos, divididos entre meninas e meninos. Biológicos e do coração. Construindo tijolo por tijolo, aos trancos e barrancos, a paternidade que não teve.

Aliás, sempre me perguntei: como alguém pode dar o que nunca soube o que era? Talvez, o desejo de não permitir que outros vivenciem o que passou seja a maior motivação.

Em uma de nossas conversas, ele expôs, sem pudores, mas com muita raiva, que ouviu acusações absurdas quando decidiu criar a filha biológica. Entre o falatório, teve gente que questionou sua real intenção ao cuidar de uma menina.

Eu me perguntei mais uma vez se o que queremos é realmente pelo que brigamos. Entendi que pais e mães agem muitas vezes de maneira que não entendemos e que cada um tem sua parcela de importância na vida de uma criança até a fase adulta.

Provavelmente ao ler esse texto, seja você pai ou não, estará acompanhando muitas histórias nas redes sociais sobre essa data ”capitalista/comemorativa” (como diz nosso colunista e pai do Arthur Joel Luiz Costa) – algumas dessas histórias de alegria, outras nem tanto.

Horas antes do fechamento desse artigo, eu liguei para um pai e lhe transmiti feliz aniversário no lugar de sua filha, que está em outro país. Por algum motivo, ele demorou alguns segundos para perceber que não era a filha dele. Nesses minutos, eu senti como era ter um pai, mesmo que não fosse o meu. Aquele abraço aumentou ainda mais o meu vazio e a minha certeza sobre a importância afetiva da paternidade.