Os esquemas do Aécio

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Aécio Neves observa a movimentação na rua de sua casa logo após o resultado da votação no Senado. (Créditos: Reprodução Internet)

“Uma imagem vale mais do que mil palavras – mas tente dizer isso sem palavras”, provocava Millôr Fernandes. A foto acima flagra um homem temeroso, acuado, tentando olhar, pelas frestas e com medo nos olhos, como repercutia nas ruas a votação que lhe favoreceu no plenário do Senado. Os 44 senadores que votaram a favor de Aécio Neves (PSDB) na noite de ontem, 17, podem ter, momentaneamente, lhe devolvido o mandato e as prerrogativas de parlamentar. Mas definitivamente não foram capazes de lhe absolver. No julgamento da história, já foi condenado em todas as instâncias. Aécio, hoje, é um morto-vivo da política. Sua carreira chegou ao fim (com trocadilho).

Vale lembrar que, no não tão distante ano de 2014, Aécio ficou em segundo lugar no segundo turno das eleições presidenciais, com margem bastante estreita de votos, atrás da candidata eleita, Dilma Rousseff (PT). Ele obteve a maior votação de um candidato oposicionista desde a eleição de Lula, em 2002: 51 milhões de votos, ou 48,36% dos votos válidos naquele pleito eleitoral. Emergiu das urnas como a maior referência da oposição no país, após já ter sido eleito e reeleito governador de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, e com mandato de senador assegurado por mais quatro anos. Sem muito esforço, poderia ser hoje um presidenciável com chances reais de vitória em 2018.

A derrocada de Neves começou quando, logo após aquele desfecho eleitoral, em vez de reconhecer a vitória de sua adversária, questionou o resultado das urnas, pediu recontagem dos votos e começou a urdir nas noites brancas de Brasília a trama golpista cujas consequências hoje são conhecidas. O golpe parlamentar de 2016, que teve em Aécio um de seus principais articuladores, destampou a caixa de pandora da política brasileira. E o abalo institucional que abriu a temporada de grampos, delações e investigações sem limites da Lava-Jato não poupou o enfant terrible de uma das mais tradicionais famílias da política brasileira.

“O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB (…). O primeiro a ser comido vai ser o Aécio” – essas foram as palavras de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e delator premiado em conversa gravada por ele mesmo com o senador Romero Jucá. A raposa felpuda do PMDB consentiu e afirmou: “é, a gente viveu tudo isso”. Esta foi a primeira das muitas gravações – e esquemas – envolvendo Aécio Neves e sua família que surgiram nos últimos meses.

Em um deles, ouvimos o senador mineiro, em tom de absoluta intimidade com o empresário-delator Joesley Batista, negociar uma transação de R$ 2 milhões e, para provar a  “confiança” no intermediário do esquema – ninguém menos que um primo seu -, Aécio afirma: “esse é um que a gente mata antes de ele fazer a delação”. Na mesma conversa, Aécio revela mais um esquema, para interromper as investigações contra ele, dizendo que estava “tudo acertado com o Michel (Temer)”. E reclama que quem estava “atrapalhando” era o Ministro da Justiça, nas suas palavras cordiais, “um bosta do c…”.

Estes episódios se tornaram públicos, estão gravados e são de conhecimento de todos. Os senadores que ontem lhe devolveram o mandato são patrocinadores e cúmplices de mais um esquema do Aécio. E essas palavras constrangedoras vão, a partir de agora, emoldurar também as suas biografias. Aécio é investigado em nove processos no STF. Existem provas contundentes de flagrantes delitos cometidos por ele.

Se existe alguma coisa abaixo do fundo do poço na política, este é o lugar onde está hoje Aécio Neves. E este abismo, como diria Cartola, foi cavado com seus próprios pés.

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Gestor cultural, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO e mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF. Foi diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura entre 2015 e 2016. Atualmente dirige o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e é autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina" (ANF Produções).