Os buracos nos barracos nos fazem sangrar

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Charge criada pelo cartunista Carlos Latuff exclusivamente para a coluna de hoje de Cleber Araújo (Créditos: Latuff)

Criminalizar os moradores das favelas é muito mais fácil que sujar o imaginário do herói que, na verdade, é o verdadeiro vilão. Sempre questionei os meios como as armas e munições chegam ao Alemão e a tantas outras favelas. Aqui não se fabrica nenhum dos dois.

Os “mulekes” não falam outros idiomas para negociar com grandes importadores internacionais. Eles não têm contatos alfandegários e muito menos aeroportuários. Sequer saem do morro. Como pode um garoto descalço, sem estudo e cheio de sonhos na cuca portar uma AK-47, um G-3, um M16, um FAL, uma AR-15, uma .30 ou .50… Como? Esse armamento vêm de países distantes. São todos muito caros, mas chegam aqui como chegam bananas à feira. Então, de que maneira todo esse armamento consegue acessar as favelas do Rio?

Elas são conduzidas por pessoas corruptas, sanguinários que destroem sonhos e seres humanos. Quem ultrapassa as fronteiras possui contatos diplomáticos, passaporte vermelho, amigos políticos e infiltração na alta sociedade burguesa, lucra com o sangue escorrido de inocentes sem direito a defesa. São monstros.

O poder público sabe, a polícia sabe, os grandes magnatas sabem, quem dirige as regras do jogo sabe e os que não têm que saber lavam as mãos. Mas as armas chegam e estão nos matando em um extermínio com o aval de quem sempre está nos apontando o dedo sujo. São os mesmos que, em redes sociais, condenam os moradores das favelas com comentários racistas e discriminatórios. Estes “cidadãos de bem” coadunam com esses articuladores, concordam com os senhores das armas da vida real.

Com a chegada dessas armas poderosas, um estrago inimaginável está feito. Elas dilaceram corpos franzinos, castigados pela fome e falta de oportunidades. Essas mesmas armas são manuseadas inúmeras vezes por jovens que jamais passaram por qualquer treinamento. As armas que chegam aqui fazem buracos nos nossos barracos e nos sangram de forma real, matando muitos, ceifando vidas precoces, nos trazendo doenças incuráveis na alma e efeitos psicossomáticos. Os estampidos que ecoam em cada disparo de arma de fogo com grosso calibre é uma saraivada de forte impacto em cada um de nós. No seu curso, os projéteis causam prejuízos visíveis no nosso cotidiano. A cada dia, são mais destrutivos esses efeitos.

Sangraram os corpos de vários moradores, que ao longo de todo esse tempo têm servido de alvo para essas armas. As marcas ainda estão aqui, nos fazem chorar, nos machucam. O sentimento de impotência ao ouvir o choro de uma mãe ou o desespero de uma criança é algo que só conhece quem passa por todo esse medo e pavor. Estamos cansados. É inadmissível que se permita a permanência dessa situação atual. Exijo das autoridades que tomem as devidas providências e impeçam a entrada de armas nas favelas.

Aos demais, que pensem muito antes de culpar os moradores de tantas desgraças causadas por quem está distante daqui do morro. Só queremos poder andar felizes e tranquilamente na favela onde nascemos. E sem armas.