Onde mora o afeto?

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Obra da artista canadense Claudia Trembay (Créditos: Reprodução internet)

Afeto é a memória do sentimento. Onde mora o afeto? Nos espaços indeterminados que podemos acessar da nossa memória, seja através do cheiro da infância, um sabor, uma lembrança, algo que comova, toque.

O que sensibiliza uma pessoa é o que a impele a reagir a um estímulo emocional. O amor é essência da natureza humana. Não somos ilhas, somos vasos comunicantes. É inerente gostar de carinho, de conversa, de sexo – o ser humano se vê no outro e neste reafirma a sua existência. O outro é essencial para o conjunto que forma a sociedade; as pessoas formam a sociedade e a sociedade funciona conforme as pessoas decidem. O intrigante é entender como ainda nos encontramos em estágios tão retrógrados de sociedade, com modelos econômicos semelhantes ao feudalismo.

O sábio pernambucano Alyson Rodrigo fala que a acessibilidade banaliza o prazer por identificar a cegueira frente a uma luz forte. De onde vem a nossa insensibilidade, se não da constante violência que presenciamos? Neste caso, a luz da cegueira viria da violência que começa no seio familiar e se estende às demais relações. Quem nunca viu um caso de agressão, machismo, racismo, homofobia, transfobia? Quantas mulheres já viu serem silenciadas? Estes são casos comuns na sociedade contemporânea e o afeto (ou a falta de afeto) está intimamente ligado a eles.

A forma com que o ser humano tem de se relacionar com o outro é bastante complexa. Imagine que, durante sete anos, um casal tenha compartilhado uma vida. Foi uma construção diária de comportamentos sociais, partilha econômica, planejamento e sonhos em comum. Quando a relação termina, ambos seguem suas vidas e tentam se desvincular do par anterior de forma a esquecê-lo. Mas o que significa esquecer alguém?  As pessoas são passíveis de esquecimento?

A finitude da existência sempre causou perplexidade ao ser humano.  Tudo que está vivo tende à morte. O movimento da terra, translação, rotação, marés… Tudo segue um ciclo, o chamado ciclo natural da vida. O conceito de ciclo natural da vida já foi delimitado a nascer, crescer, reproduzir e morrer. O ser humano, porém, tem uma capacidade singular que fere este “ciclo”: poder intencionalmente transformar o meio ao seu redor.

O livre arbítrio, ou o poder de escolha, é o que nos diferencia das outras espécies. Desde o reconhecimento dos humanos na terra, muito se transformou. São tantas as tecnologias na mobilidade, comunicação, habitação e outros reflexos da evolução material do homem que mudaram todas as relações humanas organicamente em desordem. Os sentimentos se revelam a partir de impulsos externos. Lidar com o “eu” interno,  o “eu” externo e o mundo são ensinamentos que não se aprende na escola.. O amor materno, a paixão,  a amizade são diferentes perspectivas sobre o amor. Se o ser humano é dotado de racionalidade e instinto, amar é racional ou instintivo? 

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Créditos: Reprodução internet

Se as relações interpessoais são o esteio da sociedade, como não discutir e questionar as diversas formas de sentir para que se entenda o outro? O desinteresse no diálogo gera conflitos, as pessoas precisam conversar sobre o que sentem e como se sentem. É preciso construir relações pautadas na sinceridade. A sociedade é composta pela diversidade de gênero, étnica, cultural, religiosa e ideológica. Sem dialogar, é impossível consolidar uma sociedade democrática e igualitária.

Os relacionamentos de entrega aproximam as pessoas. Elas encontram interesses em comum e decidem que vão juntas aonde querem ir. A partir deste pacto, o outro passa a conhecer manias, costumes, crenças, hábitos, reações e comportamentos do par. Analisando, compreendendo e lidando com as diferenças, há o diálogo como troca, aprendizado e ensinamento.  

As relações superficiais são a fuga do autoconhecimento, da autocrítica. Quanto mais superficial a relação, mais fácil desapegar, e para não correr o risco de sofrer, melhor não ser tão intenso. E assim fazemos das pessoas descartáveis facilmente substituíveis.

A falta de empatia é uma reprodução da violência silenciada, é o resultado da banalização da dor, a insensibilidade. Os espíritas dizem que viemos de diversas encarnações, mas tantos anos não foram suficientes para aprendermos lidar com o que sentimos. As relações familiares e com amigos são as mais íntimas e dão um diagnostico de como a pessoa se relaciona com o mundo e as demais pessoas ao redor.

O ser humano precisa lidar com seus sentimentos. Precisa entendê-los, mastigá-los, digeri-los, vomitá-los. Como já dizia Marthin Luther King Jr, “Eu decidi ficar com amor. O ódio é um fardo muito grande para suportar”.