O papel da cultura no enfrentamento da violência

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Ocupa Escola no Ciep Juscelino Kubitschek, em Manguinhos, Zona Norte do Rio. (Créditos: Marcus Galiña / ANF)

A violência desfigura a sociedade. Ao mesmo tempo, é fruto da desfiguração seletiva dessa mesma sociedade. Quando ela se agrava, o sofrimento é sistêmico, embora ainda mais agudo nas áreas já delimitadas de nosso apartheid. Tudo fica comprometido: a infância, o convívio social, a educação, o valor da vida, a circulação. A violência é o roteador do medo, da opressão e do rancor.

Esse é o quadro atual de nossa cidade. Onde a sociedade debate isso e traça planos? As ações recentes parecem ter falhado ostensivamente. O conflito armado é diário, espalhado, incessante. E como não se debate nada, acredita-se que as soluções já testadas e conhecidamente falhas estão em plena validade. Onde mais ansiamos por novidade só nos oferecem mesmice: mais armas, mais polícia, mais guerra inútil às drogas, mais violência. Em espiral.

Ah, a droga… Esse violento agente cuja contenção (seletiva em termos de substâncias), sempre e ininterruptamente, gera um rastro de sangue e morte, causando resultados similares aos que supostamente combate. Ou seja, o que deveria ser um combate a certa dor social vira o seu alimento. Os poderes públicos nada propõem de novo. O debate amplo é sequer aberto ou comentado.

Portanto, façamos nós mesmos os debates e as proposições. Estou cada vez mais convencido de que parte da saída são as formas complementares, não-violentas, de enfrentamento da violência e de seus efeitos. Acredito em um plano estratégico que mirasse o aproveitamento da força de trabalho do campo cultural e o potencial impacto que uma rede de ações culturais contínuas, bem orquestrada e capilarizada pelos territórios, poderia causar na juventude e na vida social dos bairros.

Sim, caros conterrâneos, falo de apostar sistematicamente no poder social das artes e da cultura como parte de uma nova estratégia urbana. Esta é uma força de trabalho disponível na cidade, que opera muitas vezes de forma precarizada, mas que é viva, atuante e mobilizada. Temos ótimos quadros sociais que podem incidir com muito mais relevância se o orçamento público melhor dirigir os seus recursos.

Falo da força de trabalho da cultura hip hop, da capoeira, do teatro, da dança, do circo, das escolas de artes, da música, de toda diversidade de atuação cultural. As escolas, as ruas, os espaços culturais comunitários historicamente ativos e os parques públicos poderiam ser as bases de atuação. Imagine: 150 bases impactando 150 territórios, continuamente, durante os próximos 4 anos, empregando uma massa de trabalhadores da cultura e artistas, de cada território, atraindo a juventude, criando um programa amplo de bolsas para nossos jovens. É um esboço, mas que, amparado num conjunto de experiências recentes que nos fazem apostar neste caminho, deve ser aprimorado e debatido.

Está na hora da cidade ver surgir algo assim. Uma inversão de prioridades, um rearranjo de investimento, uma nova abordagem. Certa vez, falei: “enviar nove mil soldados é mole, quero ver enviar nove mil artistas educadores”. Cansamos de ver cifras públicas astronômicas destinadas a obras faraônicas, propinas ou armamentos. É preciso investir pesado em cultura, arte e educação nos próximos 10 anos. Em 2027, tenho certeza, viveremos em uma cidade melhor, menos violenta e mais humanizada.

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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"