O grito do favelado

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Depois de uma viagem alucinógena, fui teletransportado para um mundo imaginário e perfeito. Um local distante daqui, muito distante: a minha mente interior. Ao vagar por vários neurônios em plena ebulição eletromagnética (devido às alterações psíquicas), essa viagem gerou um encontro íntimo com o meu próprio eu arruinado.

Nesse espaço de tempo, a minha percepção fica em altíssima. Vejo o quanto estamos desconectamos de nós mesmos. No primeiro momento dessa viagem insana, encontrei seres com poderes descomunais, uma inteligência galáctica e altamente sensoriais, e eles vieram ao meu encontro e me perguntaram como estava o mundo lá fora. A grande indagação deles era se o que haviam tomado conhecimento era mesmo verdade. O caos estava instalado no nosso mundo? Expliquei:

– Nosso mundo está muito louco. Vemos pessoas sem amor, uma grande exposição ao ódio. As pessoas não se importam muito com as outras. Governos movidos por corrupção castram a inteligência das pessoas. Poucos com muito e muitos sem nada para sobreviver. Nações em guerras com o único intuito de ganhar mais poder e alimentar sua ganância. As vendas de armas se acentuam cada dia mais, novas drogas surgem a cada dia e dominam as grandes massas carentes. Temos alimentos contaminados, grande insurgência de novas doenças criadas em laboratórios e espalhadas sob a forma de contágio. Há em curso uma caçada aos cérebros através de um controle mental estimulado por telas extra-sensoriais programadas, com o caos sendo instaurado de forma alarmante. Mortes e mais mortes são patrocinadas por quem deveria combatê-las.

Isso foi um choque para aquele ser que estava em contato comigo. O mais dramático do relato que estava fazendo foi a forma como eu dizia todas essas coisas, e o ser me perguntava: “Por que as pessoas não reagiam a tudo isso? Ninguém deveria aceitar ser manipulado, não deveriam deixar alguns poucos governarem e dominarem, pois as pessoas juntas seriam uma grande força”. Ele chegou a se irritar com de que maneira é possível a grande maioria se deixar ser usada como massa de manobra para beneficiar apenas um pequeno grupo. Ele pediu que eu fizesse desse relato um grito.

Nessa minha viagem interior, cada segundo lá é gratificante. Não dá mais vontade de voltar. Certa vez, encontrei um sábio pensador que demonstrou imensa preocupação com o desenrolar de como estamos caminhando aqui. Ele foi enfático ao afirmar que um cataclisma nos espera o mais breve possível. Segundo ele, os nossos passos estão largos e apressados para um fim trágico e sem retorno, uma autodestruição da própria raça, um extermínio programado. Ou seja, o mundo está indo num caminho sem volta para o abismo. Afinal, como já dizia aquela frase famosa, “Os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mais pela quantidade”.

Diante de tantos fatos de relevância, saí dessa minha viagem certo de que estamos em cima de uma placa fina de gelo e, por baixo, estão intensas chamas crepitantes passando despercebidas. O ser humano está matando a si mesmo. Vários têm sido exterminados por seus próprios semelhantes. Como nunca antes, está faltando amor, cumplicidade, solidariedade, compaixão, está faltando tesão. Olhando daqui, vejo o anseio e gritos desesperados de pessoas pedindo socorro, buscando atenção, buscando serem vistas.

Quando percebi que, naquela viagem, eu não poderia ficar lá, entrei em desespero e entrei um em transe causado por um imenso sentimento de fragilidade. Meu maior desejo era ficar naquele mundo, onde não existe noite nem dia, não existe dor nem frio, onde não há mortes de crianças, mães não têm seus filhos assassinados, não existe fome nem crianças abandonadas. Também não tinha religião, muito menos desigualdade. Todos compartilham o que têm e vivem realmente em comunidade.

Como queria ficar lá…. Não precisa de dinheiro, pois lá nada se compra nem se vende, não tem ódio nem o mal pode chegar lá… Como gostaria!

Quando dei por mim, acordei com vários estampidos de calibres diversos bem no beco onde moro. Então, comecei a gritar: “Quero voltar!”.