O êxodo

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Créditos: Diego Mascarenhas / AG. A TARDE

Eles recolheram os seus pertences. Agora, imensas trouxas os acompanhariam pela longa jornada. Muita coisa foi deixada pra trás. A casa estava bagunçada de tanta roupa velha e tralha largada. O homem se comoveu. A mulher bateu a porta decidida. Ali ficava um lar. Mas o que significa um lar no coração do inferno? As crianças, resistentes e alegres, brincavam com cabides coloridos, enquanto avançavam pelo beco para alcançar a viela que os levaria ao ladeirão e, depois, ao infinito asfalto. Esbaforidos, suados e decididos, encontraram, na esquina, com mais uma família que também descia, que também trazia nas costas todo o seu patrimônio.

Entreolharam-se, descansaram brevemente e trocaram palavras banais. Quando colocaram tudo novamente sobre os ombros, uma terceira família, imensa, descia pela ladeira esquerda. Eram uns 16 adultos e 15 crianças, e todos cantarolavam um baião.

Uma rajada de metralhadora cortou a tarde. Um galo cantou. As famílias, subitamente reunidas, avançaram juntas, ocupando meia pista. No quarteirão seguinte, um grupo três vezes maior já ocupava o largo.

Caminharam por 4 horas. Avistaram uma bonita praça cercada de edifícios marmorizados. Uma garagem se abriu. Um comboio de 32 carros saiu lentamente. Buzinaço e gritos ecoaram na noite.

Mais famílias se despediam da cidade.

Do helicóptero, o repórter invejava a multidão que ocupava as ruas, num movimento lento, esparramado, mais forte aqui, mais fraco acolá.

Ontem, no primeiro dia da surpreendente decisão coletiva, 2 mil famílias abandonaram seus lares e partiram rumo aos verdes campos inabitados do interior.

Hoje, já são 14 os bairros completamente vazios. A imensa ponte foi fechada ao tráfego porque foi o itinerário preferido de todos. De cima, parecia um formigueiro em fuga.

Era bom e reconfortante despedir-se da cidade inviável, contemplando-a daquele incrível ângulo. E também o mar brilhante e as esculturais encostas. Todos paravam um pouco para a última selfie, a inédita prece e o derradeiro olhar. Depois seguiam.

O século do êxodo urbano começou assim. Eu vi. Hoje, seis dias depois, a cidade está praticamente vazia. Os pombos são, agora, os senhores da metrópole. Quem jamais imaginou que algo assim aconteceria?

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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"