O cemitério de todas as poesias

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Sinto-me preso na jaula da saudade. Encarcerado, maltratado, maltrapilho, e a detenção só me fez deter o meu ódio contra o sistema que mata a todo o momento. Eu sou apenas uma vítima da sociedade que esbanja a alegria que dura pouco e que é ostentada nos seus iPhones e nas redes sociais. Estou excluso da sociedade, sofro muito porque eu não queria estar aqui. É uma pena, grande pena… De quantos anos? Sei lá, passa devagar demais; passa o tempo, mas não passa a saudade de casa e a vontade de conseguir sorrir de novo.

Eu queria trocar alguns abraços, mas onde eu vivo só existem troca de tiros. Não existe brincadeira de “polícia e ladrão”, aqui a parada é séria! Tão séria que estou com o meu crucifixo, o único amigo que tive, a única escolha que tinha a não ser morrer.  Mão algemada, sangue, a última parada? Sejam bem-vindos! Preto, branco, pivete, vagabundo, lixo… Humanos? Mas cadê a porra dos direitos? O único direito que temos é não virar finado antes do tempo. O tempo eu vejo com o sol que aparece da janela da cela, ou quando eu tomo banho de sol.

Já fiz apologia ao crime com os meus próprios atos e hoje eu faço também. Se fizer apologia ao crime é dizer que um pai de família, que não tem um pão pra comprar pro filho, se é gente morrendo, trocando tiro com a polícia, se é detento tratado como um saco de lixo… Que se foda! Então, eu faço apologia ao crime! Não sei em qual artigo, não tenho mais pronome, virei número pra não virar estatística. Eu sobrevivi e vivo um mundo totalmente diferente. O que me difere é que eu tô preso e angustiado, sem amor. Amor? Aqui não nem se sabe o que é isso.

Já fui capa de jornal, mas não como herói, e o meu retrato tá na cabeceira da minha filha e da minha esposa. Odeio polícia e os olhos do político. Escola sem lousa, professor… Essa é a realidade do mundo. Ninguém me deu educação, ninguém me deu esperança, porque só me deram porte de arma, drogas e a situação de me sentir uma poesia que eu nunca vou terminar porque me sinto angustiado. Às vezes, eu nem sei o que eu sinto; às vezes, só raiva mesmo de estar nesse inferno, onde Deus passeia com o capeta de mãos dadas.

Hoje, eu estou livre com um treco me seguindo. E as coisas não mudaram. Em mim mudaram, sim, porque eu escrevi uma história que meus amigos não puderam ou não quiseram escrever com medo de serem mortos. Hoje, eu tô morrendo de amor, chorando de emoção e não mais de olhar na porra do relógio e ver que ainda é de manhã e eu teria que passar o tempo todo encarcerado.

A minha história é longa, tá na livraria, mas a história da humanidade não mudou merda nenhuma. Direitos humanos em terras de Temer, Sarney e Feliciano? Golpes de taco de beisebol no meio da sua cara e você mudo, fingindo que tá tudo bem. Democracia no lixo, cadê meu título? No Campeonato Brasileiro? No ópio? Às vezes, dá vontade de matar essa situação toda com a minha Glock e o sangue que bombeia meu coração continua sofrendo muito.

A guerra continua…