O carnaval mais polêmico de todos os tempos

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Créditos; I Hate Flash / Reprodução Internet

2017 vai despontando como um ano repleto de polêmicas pontuais se levarmos em consideração as muitas questões já levantadas em torno do carnaval por diversos grupos. As discussões vão desde letras preconceituosas a uso de purpurina, de fantasias a legitimidade local. Ou seja, uma loucura total.

Baco, que é o deus grego das festividades, ficaria com o queixo caído de ver como a festa em que ele foi consagrado tantas vezes se tornou alvo de tantas discórdias. Zé Pereira não ficaria menos surpreso, nem os compositores de tantas marchinhas imortalizadas.

As discussões tratam principalmente sobre algumas letras com baixo ou forte teor de preconceito e discriminação e vem partindo dos blocos que tocam no eixo Centro/ Zona Sul. “O Teu Cabelo Não Nega” é a mais emblemática de todas, principalmente pela estrofe: “Mas como a cor não pega mulata, mulata, eu quero o seu amor”. Os puristas a defendem porque foi composta numa outra sociedade e por um dos maiores compositores brasileiros, Lamartine Babo. Defendem que o contexto era outro e era “comum” as pessoas não se aterem a esse tipo de cuidado ou preocupação com o seu próximo. Tem também “Cabeleira do Zezé”, que ofende alguns gays e leva outros à apoteose total.

Não vejo blocos tradicionais como o Cacique de Ramos ou o Bafo da Onça levantarem esse tipo de discussão. Não que ela não seja válida. Eu, particularmente não gosto de “O Teu Cabelo Não Nega” e aprovo, sim, que sejam banidas do carnaval, mesmo sabendo que lutarei por algo impossível. Da mesma forma, creio ser um tremendo desrespeito, principalmente com a mulher negra, dizer que isso é “mimimi” e atribuir a discussão ao fato de que as pessoas estariam “chatas” nos dias de hoje, sem senso de humor. Não, as pessoas que se sentem ofendidas não são chatas. Elas têm, sim, o direito de mostrar seu desconforto com essa ou aquela expressão cultural, e temos que ouvi-las mesmo que, em determinado ponto, a gente não esteja em concordância. É o que se espera de uma sociedade racional.

Outra questão que vem sendo bastante discutida é a velha pergunta do Noel Rosa: com que fantasia eu vou? Essa é mais uma discussão muita nova do carnaval carioca. Nunca antes fantasia havia sido motivo de discussão. Era consenso universal que no carnaval pode se ser tudo, menos um ditador ou facínora como Hitler ou Pinochet, é claro. Carnaval é para extravasar e, dentro do respeito, sacanear mesmo o próximo. Essa é a grande sacada!

Um dos personagens mais marcantes do carnaval do Rio de Janeiro está em extinção. Falo do Bloco das Piranhas. Hoje, muitas feministas se incomodam com o fato de se verem estereotipadas em homens fantasiados de mulher. Eu sou obrigado a concordar em parte com o desconforto delas, porém, eu, que me visto de mulher, todo ano saio com o intuito de homenageá-las, jamais ofendê-las. Até fantasia de índio está sendo questionada, e eu, que sou neto de índios, nunca vi ninguém reclamar da marchinha “Índio Quer Apito” ou de quem usa cocar e biquíni de penas durante o carnaval.

Eu poderia me estender e falar da questão da purpurina e do bairrismo territorial, mas deixo isso para uma outra hora.