O assassinato de quem ainda não nasceu

A violência do Rio de Janeiro transcende a ordem natural das coisas.

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Imagem de internet

Nascer, crescer, multiplicar e morrer. Segundo a religião judaico-cristã, essa é ordem natural da vida. Ou era. No inverno de 2017, o Rio de Janeiro inaugura uma nova espécie de crimes na história da humanidade. No ritmo em que andamos, em breve, pode até constar no Código Penal – ou na sua versão carioca, se assim fosse possível.

Como diz o dito popular, “para morrer, basta estar vivo”. Não no Rio de Janeiro, aqui é diferente. Explico. No Brasil, de acordo com o Código Civil, são preservados os direitos do nascituro, aquele ser – feto – cujo nascimento é dado como certo. Para ser declarado vivo, o feto precisa de uma Declaração de Nascido Vivo, fornecida pelo hospital após o parto, passando a poder ser registrado, adquirir certidão de nascimento e nascer para o mundo real enquanto sujeito de direitos e deveres.

Uma gestação de nove meses já pode ser dada como certa, tirando casos excepcionais de problemas médicos. A essa altura do campeonato, os pais só se preocupam com o parto, único momento de real perigo para a vida da criança.

Mas não no Rio de janeiro, na Cidade Pseudo-Maravilhosa – maravilhosa pra quem?! –, onde aquele que ainda não nasceu pode, sim, ser assassinado. Este é o caso do bebê Arthur, atingido por uma bala perdida na barriga da mãe, Claudineia dos Santos Melo, moradora da Favela do Lixão, em Duque de Caxias, no nono mês de gestação. O tiro atravessou o quadril da mãe e alcançou a criança.

É preciso esclarecer que, até o momento em que escrevo, o bebê está internado em estado gravíssimo após o parto forçado, e, segundo os médicos, a sobrevivência dele se deu por um milagre. Os médicos afirmam que, ainda que passível de reversão, ele está paraplégico e com os dois pulmões perfurados. Arthur já passou por duas cirurgias.

Como poderia se imaginar, essa situação, praticamente inédita, repercutiu no mundo inteiro. Não nos surpreende, afinal, falamos de um feto atingido pela famosa bala perdida carioca, mais inserida na rotina da cidade que o Biscoito Globo. O carioca pode ter naturalizado a violência, mas o mundo ainda se surpreende com a escala de selvageria a que somos submetidos dia após dia.

Aproximadamente um mês depois, Flavia Ahrends foi atropelada pelo veículo guiado por dois homens que a assaltavam em uma rua de Higienópolis, na Zona Norte. Flávia estava grávida de 3 meses e perdeu o bebê. Coincidência ou não, seu filho também se chamaria Arthur.

Na nossa vizinha Argentina dos anos 1970, década marcada pela violência da ditadura, era comum uma piada de humor contestável, na qual diziam “Nós, argentinos, estamos divididos entre enterrados e desterrados”. Eu me questiono se, em breve, não poderemos usar tal frase.

Fica nossa torcida e orações pela sobrevivência do pequeno Arthur. Porém, a verdade é que, para um favelado, filho de pai negro, vindo dos extratos sociais desse país desigual, paraplégico ou não, Arthur ainda vai ter que lidar com a morte de perto várias vezes para viver e sobreviver nessa cidade-desespero chamada Rio de Janeiro.