Nesses seis anos de pacificação, não temos nada a comemorar

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Violações de direitos básicos, abuso de autoridade, mortes, inúmeros feridos, confrontos quase diários, muitas marcas emocionais, milhões gastos para maquiar outros gastos exorbitantes… Os moradores do Complexo do Alemão viram tudo isso em nome da tal pacificação. Mas, a meu ver, ela nunca chegou de verdade a nenhum de nós.

Nos primórdios desse circo pirotécnico, parecia até que algo positivo ia acontecer… Mas apenas parecia. Foi o início de um longo período de mentiras e promessas nunca realizadas. Alguns moradores chegaram a crer nas ações dessa maquiagem, porém, logo ficou claro que tudo não passou de uma forma de lavar dinheiro para este governo. Não podemos esquecer do fato de terem usado o tema como plataforma eleitoreira de campanha, buscando com isso se consolidar no cargo e ganhar o apoio da sociedade – sociedade esta que aplaudia os métodos de pacificação enquanto forma de punir a favela, ou, segundo eles mesmos falavam, “colocar ordem na casa”.

Ledo engano. A pacificação não passou de um espetáculo circense, em que os ingressos foram pagos por toda a sociedade. Cada bala deflagrada no corpo de um morador foi paga com o dinheiro sujo dessa gente corrupta que, em suma, queria (e ainda quer) ver o nosso extermínio. Eles sonharam com o fim das favelas, vibraram a cada discurso hipócrita dos governantes. No rol das maquiavélicas vontades egocêntricas de quem patrocinava essa barbárie por baixo dos panos, havia o desejo desesperado de não mais ver favelas nas suas caminhadas matinais e por onde quer que passassem com seus carros blindados.

Hoje, fica claro que nunca houve vontade de pacificar. O que vimos foi a prática de exterminar. Isso foi feito de forma covarde e simultânea a cada ato que chancelava o desejo indigno dos que planejaram e colocaram em prática esse modelo. O mais horripilante era que alguns dos nossos próprios algozes pediam da população cooperação e paciência, alegando que tudo era experimental. Quantas vezes ouvi essa expressão: “Tenham calma, é um processo”…! Enquanto isso, pessoas eram mortas e feridas, becos e vielas eram inundados de sangue. Vimos uma verdadeira chacina feita à luz do dia, com aprovação e patrocínio até do estrangeiro. A pacificação não passou de um grande engano social.

 

Invasão do Alemão pela Polícia Militar em 2010 (Créditos: Reprodução internet – Robson Fernandes / Agência Estado / AE)

 

O número de confrontos, que se acentuou aqui, não pode ser comparado nem mesmo a países oficialmente em guerra. Devido ao nosso grande contingente populacional e à maneira como somos aglomerados no território, nada disso jamais poderia ter acontecido. Cada estampido ouvido nesses seis anos teve danos irreparáveis em muitas vidas – e o Governo, ao lado de quem ajudou, patrocinou e apoiou a pacificação, tem total culpa nisso.

Ao acordar no dia de hoje, seis anos depois, posso ver claramente que tudo funcionou como um trampolim no qual alguns foram catapultados para o nada, outros se deixaram usar como marionetes em troca de migalhas, outros mais venderam suas almas ao Diabo em troca de fama e um poder transitório e ilusório. Ainda houve aquelas centenas de pessoas trapaceadas e ludibriadas e quem se deixasse manipular em troca dos despojos e que hoje está a ver navios. Oh, coitados… O saldo negativo supera de longe o que podemos lembrar de positivo da tal pacificação.

Esse capítulo da história que o Rio de Janeiro escreveu foi o mais terrível de todos. A grande prova está aí, para qualquer um ver e tirar suas próprias conclusões. O executor desse plano maléfico, o então governador Sergio Cabral, está hoje atrás das grades, preso por tantos males cometidos. Não está no seu rol de acusações, mas deveria constar as centenas de mortes que aconteceram e ainda estão a acontecer nesse estado por conta dos desvios e erros na aplicação das politicas públicas de segurança.

Para finalizar, quero deixar bem claro algo que eu sempre disse e que volto a repetir aqui agora. A pacificação de favelas como o Complexo do Alemão não passou de um grande golpe eleitoreiro, não deixou de ser uma grande farsa com intuito de acabar com o que somos e ganhar o apoio da sociedade, cujos reais fins eram a especulação imobiliária e uma limpeza social sem detergente. Por isso afirmo e reafirmo: não tenho nada a comemorar.

E você? Tem?