Não existe cor em SP

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Créditos: Fernando Cavalcanti

Mesmo não residindo em São Paulo, é fácil acompanhar a gestão do novo prefeito – e por que não chamar de “midiático”? – João Dória Jr. No primeiro dia de mandato, se vestiu de gari. Depois, houve discussão de um projeto em que se doariam kits higiênicos para moradores de rua. E a decisão mais polêmica até agora: o Projeto Cidade Linda, com o intuito de retirar os grafites coloridos dos monumentos e vias da cidade, já informalmente considerados pontos turísticos devido aos cliques fotográficos de muitos visitantes. Ao todo, 490 obras foram apagadas sem diálogo, resistindo apenas oito – um retrocesso disfarçado de limpeza que, segundo o prefeito, ainda não terminou. A partir dessa ação, perdi as contas de quantas notícias, inventadas ou verdadeiras, saíram na mídia.

A diferença entre grafite e pichação é simples e feita apenas na América Latina, pois na Europa é tudo grafiti. No grafiti, sempre há algum significado político, social ou sentimental, além das cores vibrantes e diferenciadas. Na pichação, o objetivo é a demarcação de território, disputa de qual grupo chega mais alto em um prédio. Poder. É o grito de resistência, de um grupo que não quer mais ser estatística. O pixo também é a arma dos que não têm voz. Dos marginalizados, dos invisíveis e dos esculachados. A classe média que apóia Dória contra a pixação é em suma maioria aquela que fecha o vidro do carro quando vê um menino negro e/ou não enxerga o favelado como gente. Critica o pixo mas vai ao Boulevard Olímpico fotografar obras de Eduardo Kobra; não entendendo que são o mesmo movimento de expressão.

O grafite já faz parte da história da arte urbana desde 1980, junto com o movimento hip hop nos Estados Unidos. Ainda hoje é uma expressão de revolta e de demarcação de territórios entre gangues. Tanto no “pixo” quanto no grafite, o importante é ser visto. Na década de 1980, grupos deixavam sua marca em toda a extensão dos trens de Nova York e se sentiam valorizados quando viam suas intervenções em destaque, mesmo que marginalizadas.

O grafite chegou ao Brasil por São Paulo, depois da Ditadura Militar, e por muito tempo foi considerado crime. Ainda é, de alguma maneira. Hoje, funciona assim: se a prefeitura não solicita uma obra a ser estampada na cidade, ela não pode ocorrer de maneira alguma. A pichação e o grafite são farinha do mesmo saco nesse sentido. Ambas ferem a moral do governo em exercício, sem distinção. Apesar de todos terem, garantidos por lei, o direito à cidade e de se expressarem, isso nem sempre é regulado, apenas restrito.

A expressão das ruas só começou a ser vista enquanto arte a partir do reconhecimento de fotógrafos que passaram a registrar as obras e o seu significado. Instalou-se um mercado valorizado. Cada artista tem seu próprio estilo e os brasileiros são consideravelmente respeitados em todo mundo. Talvez Dória seja o único que ainda não enxergou.
A Cidade Linda é aquela que respeita e valoriza as expressões artísticas de seus habitantes. É um desrespeito geral cobrir as emoções e tantas histórias presentes nas paredes.

Porém, o mesmo poeta que diz que não existe amor em SP, é o que diz que ainda há tempo.

Resistimos.