Na favela onde moro: sobre dinossauros e polícia

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Créditos: Wilton Júnior/AE

Quando eu era pequeno admirava os helicópteros, mesmo sem saber falar seu nome corretamente – até os 11 anos de idade, sempre achei que era “aerocóptero”. Certa vez, li em uma revista que eles eram como o beija-flor, o único pássaro capaz de pousar no ar.

Na favela onde moro, helicópteros são coisa comum. Em uma ocasião no ano, corremos atrás deles: em dezembro, quando o Papai Noel traz presente pras “crianças carentes” da comunidade. Nas outras inúmeras ocasiões, não há bom velhinho. Só a caveira do Bope. E, de presente, uma .30, cuspindo munição letal em qualquer coisa que se movimente.

Nessas ocasiões, os helicópteros não me lembram o beija.-flor. Eles se parecem mais com aquelas bestas pré-históricas aladas dos filmes do Steven Spielberg. Aqui, na favela onde moro, a vida é meio “estilo Jurassic Park” mesmo: cheia de perigos e aventuras, com direito à pterodátilos blindados, espalhando medo e morte.

Na favela onde moro, somos tratados como homens primitivos. Igual a macaco. Igual a bicho…

Tô querendo sair do “mundo das cavernas”, mas tem Caveirão na terra e tem Caveirão no ar. Na favela onde moro, não tem para onde escapar.