Mulheres da periferia pedem por educação e direitos no 8 de Março

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Roxo e lilás são as cores do feminismo (Créditos: Rebeca Belchior / Cuca da UNE)

A Avenida Rio Branco foi colorida com tons de roxo e lilás na noite deste 8 de março pela manifestação da Greve Internacional das Mulheres, movimento que mobilizou trabalhadoras e estudantes em 80 cidades do Brasil e 59 países do mundo. Com a pauta feminista na ponta da língua, cerca de 20 mil mulheres marcharam pelo Centro do Rio para pedir igualdade de direitos e dizer não ao recentes retrocessos ocorridos no país.

Vanderlea Aguiar (direita) é uma das coordenadora do curso de pré-vestibular comunitário da Rede Emancipa em Vila Isabel (Créditos: Julianne Gouveia / ANF)
Vanderlea Aguiar (direita), moradora do Morro dos Macacos, é uma das coordenadora da Rede Emancipa em Vila Isabel (Créditos: Julianne Gouveia / ANF)

Organizações e coletivos marcaram presença no ato, assim como associações de servidoras públicas e trabalhadoras comuns, que bradaram contra o machismo e a falta de oportunidades do contexto de crise atual que afeta principalmente as mulheres mais pobres. Vanderlea Aguiar, do Morro dos Macacos, sabe bem o que é esta realidade. Ela é uma das coordenadoras da unidade Vila Isabel da Rede Emancipa, que organiza cursos pré-vestibulares comunitários pelo país voltados para a inserção nas universidades públicas, formação crítica e empoderamento de jovens das favelas e periferias.

– Nossa finalidade é existirmos para um dia não existirmos mais. Queremos educação igualitária para todos. Estamos aqui nos manifestando enquanto mulheres e mães. Tenho filhos em idade escolar, galgando uma oportunidade, e não temos expectativas para fazer isso de maneira direta, pois a educação pública não prepara para a universidade, menos ainda agora – explica.

Sarah Elisa, estudante da Uerj, veio protestar contra as condições da universidade (Créditos: Julianne Gouveia / ANF)
Sarah Elisa, estudante da Uerj, veio protestar contra as condições da universidade (Créditos: Julianne Gouveia / ANF)

A estudante de pedagogia Sarah Elisa, 21, também estava na rua para pedir por mais educação e direitos para as mulheres negras. Aluna da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) no campus Caxias, ela criticou os cortes de verbas da instituição e a demissão de funcionárias terceirizadas do setor de serviços gerais, ocorrida ontem, 07: “Minha luta é contra o sucateamento da Uerj. Trabalhadoras negras foram demitidas, bolsistas e cotistas estão há meses sem receber. O corte das bolsas afeta, principalmente, os estudantes negros. Sem dinheiro, não temos como ir até a universidade”.

Críticas ao Governo Pezão e o pacote de autoridade que ele ainda tenta aprovar na Assembleia Legislativa foram frequentes durante todo o ato. Servidoras, professoras e funcionárias da Cedae saíram em defesa da manutenção dos serviços públicos de qualidade e contra a Reforma da Previdência, que pretende igualar o tempo de contribuição entre homens e mulheres.

Valdelina Barbosa, fundadora do Bloco Afro Cultural Imalê Ifé de Duque de Caxias, era uma das indignadas: “Eles têm que devolver o dinheiro que roubaram e que deixou o Brasil nessa situação, com todo mundo passando necessidade, servidores pedindo cestas básicas, professores também sem salários”. A baiana Edinair Marciano, moradora da cidade também há 38 anos, criticou o governo de Michel Temer, um dos alvos de grande parte das manifestações contrárias da noite: “Estar aqui representa muito, principalmente, para a luta pelos nossos direitos que o Temer está querendo tirar. Isso, nem eu nem ninguém aqui aceita. Pra mim, é ‘Fora Temer’ e ‘Volta Lula'”, resume.

 

Violência contra a mulher em pauta

Jessica Lameri (Créditos: Julianne Gouveia / ANF)
Jessica Lameri (Créditos: Julianne Gouveia / ANF)

Com seios descobertos e pintadas com tinta vermelha, muitas mulheres protestaram contra os dados da violência que tornam o Brasil um dos campeões mundiais em feminícidio, os crimes de ódio contra pessoas do gênero feminino. Faixas e cartazes também pediam respeito e liberdade para a preservação da vida. Jessica Lameri, militante do grupo Feministas Cristãs, chamou a atenção ao lembrar do dado de uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie, divulgada em novembro de 2016: 40% das mulheres vítimas de violência domésticas vivem em lares evangélicos. “O meio cristão reprime a busca das mulheres por direitos e por ter voz. Isso favorece que elas se calem”, opina a moradora de Cascadura.

O caso Eliza Samudio e o retorno aos holofotes do ex-goleiro Bruno, acusado de sua morte, também ganhou as ruas. Ao fim do ato, encerrado com apresentações de grupos culturais femininos como Zanzar, Baque Mulher e Maria Vai com as Outras, a leitura de um manifesto citou os assassinatos, as ameaças de estupro, os estereótipos da sexualização das mulheres negras, a legalização do aborto, a violência obstetrícia, a lesbofobia, a transfobia, o combate ao projeto Escola Sem Partido e sua cruzada contra a chamada ideologia de gênero como algumas das reivindicações do movimento.

“Estamos aqui mais unidas do que nunca”, afirmou uma das mulheres ao microfone. A Praça XV lotada às 20h30 de uma quarta-feira, certamente, é mesmo uma prova disso.