Moradora de Acari é vítima de disparo acidental da polícia

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Raio-x mostra que projétil por muito pouco não atingiu o osso da perna de Marcia (Créditos: Buba Aguiar / ANF)

A agente comunitária de serviço social e moradora de Acari Marcia Cristina Nascimento Brandão, de 45 anos, acusa a polícia de tê-la baleado na perna direita por acidente. Ela teria sido atingida por um disparo acidental que veio de dentro do carro blindado, o “caveirão”, do 41º Batalhão da Polícia Militar. O caso aconteceu em 6 de outubro, durante uma incursão policial na favela.

Na manhã dia do incidente, a Favela de Acari sofreu mais uma das inúmeras incursões policiais violentas que têm ocorrido com frequência nos últimos tempos. A operação se iniciou enquanto a moradora Marcia Cristina ainda estava em uma academia próxima à favela. Ao retornar para casa, ela recebeu a ligação de uma amiga, que estava assustada com a operação e com receio de que policiais invadissem sua casa. Marcia abrigou a amiga, que não queria ficar sozinha, e foi baleada quando saía de casa para comprar açúcar. “Antes de sair, eu olhei a rua do meu portão para verificar se estava tranquilo de sair. E estava, mas em seguida tudo aconteceu”, contou a vítima.

Moradores que presenciaram o ocorrido disseram que, aparentemente, o carro blindado da Polícia Militar estaria se dirigindo a uma das saídas da favela quando um tiro foi disparado de dentro do caveirão. “Eles estavam indo embora. Quando passaram por um quebra-molas, ouvimos o barulho de um disparo e depois a Marcia disse que havia sido baleada”, relatou um deles, que não quis se identificar.

Marcia e outros moradores também acusam o atirador de estar com o fuzil destravado, o que acabou acarretando o acidente. “Parei pra conversar com um vizinho e foi quando vimos o caveirão passar pelo quebra-molas, que é muito alto. A parte traseira do caveirão passou pela lombada de forma brusca, e aí ouvi o disparo e depois um barulho que parecia ser a bala ricocheteando. Logo, senti minha perna queimar e vi que havia sido baleada”, relata Marcia. Ela acredita que o disparo tenha sido acidental, mas lamenta o despreparo da polícia. “Deu pra perceber que não foi intencional, mas é um absurdo um policial andar com um fuzil engatilhado, sem estar em situação de perigo, e num local com pessoas transitando pelas ruas”, afirma.

 

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Créditos: Buba Aguiar / ANF

 

Além de toda a situação, Marcia não conseguiu ser atendida pelos policiais, que tentaram socorrê-la, mas que acabaram impedidos de manobrar devido ao tamanho do blindado. Ela foi levada por vizinhos até o Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, que fica a 15km de distância da favela, depois de ter atendimento negado no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, que não tem emergência, e sofrer com o descaso de enfermeiros também no Albert Schweitzer. A moradora encontrou os policiais no hospital em Realengo, que foram procurá-la, e os confrontou pela conduta perigosa:

– Eu procurei saber o nome deles. A maioria se identificou pra mim, menos um policial, que estava mais nervoso. Eu insisti em saber o nome dele, pois ele é um agente do estado e eu, além de cidadã, sou vítima, e tenho o direito de saber. Mas os outros policiais tentaram impedir que eu dialogasse com ele. Perguntei se tinha sido ele quem atirou em mim, e ele se afastou. Não aguentava nem olhar pra mim direito. Aí, tive a certeza de que ele havia me baleado, conta.

Um mês depois do incidente, a moradora ainda está com o projétil alojado na perna. Ela realizou exame de corpo de delito no IML e está acompanhando o caso na 39ª DP (Pavuna), onde o caso foi registrado. O tratamento médico continua e, mesmo com as dificuldades do sistema público de saúde, Marcia aguarda cirurgia. O raio-x indica que o fato de a bala ter ricocheteado antes de atingi-la evitou o pior: “Eu vou seguir com o caso. Isso foi um absurdo. Vou até o fim denunciando o que aconteceu comigo. Foi um tiro de fuzil. Se tivesse me atingido direto, teria feito um estrago na minha perna”.

A Agência de Notícias das Favelas entrou em contato com o 41º Batalhão de Polícia Militar, que afirmou que abriria investigação sobre os ocorridos se houvesse denúncias formais. O batalhão não quis se pronunciar sobre a situação de Marcia, informando apenas que havia registrado o caso.

 

Incursões violentas são frequentes

Vários moradores, além da vítima do acidente, denunciaram violações e abusos policiais durante esta operação para a equipe da Agência de Notícias das Favelas. Dias depois desta operação, outras incursões policiais ocorreram na Favela de Acari, tão violentas quanto. Na maioria das vezes, as operações eram realizadas pelo 41º BPM. Mas a própria Marcia Cristina Nascimento Brandão teve seu terreno invadido durante uma operação realizada pela Polícia Civil. Os policiais só não entraram em sua residência por conta dos latidos de seu cachorro. “Favela não é bagunça. A gente vive com muita luta. O Estado não pode simplesmente chegar e achar que tem o poder de tirar a nossa vida apenas porque quer”, finaliza.