Minh’alma

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Domingo de céu azul, manhã tranquila, ensolarada, e eu, olhando a tela pensando no que escrever, em quais sentimentos deixo impresso no papel. Não é uma tarefa fácil escrever todo domingo. É um trabalho prazeroso, uma viagem interessante, mas, a construção da história a ser contada é precedida de ansiedade, de uma caminhada interna sem rumo definido, um andar pelo papel imprimindo letras, que torço que tenham sentido, que traduzam o que sinto e percebo ao meu redor.

Talvez, para a maioria dos que se arriscam como eu a colocar suas impressões da vida, do ser humano, da sociedade em que convive, seja simples, seja leve. Para mim, ainda é uma descoberta, uma novidade que me causa ansioso prazer.

Acordei com as poesias da portuguesa Florbela Espanca me rondando. É bom ouvir o ritmo das palavras, perceber a harmonia dos sons, mesmo quando desarmônicos. Os poetas moldam a vida em palavras encantadas, descobrem a magia das nuances verbais, transformam em código poético as cores, imagens, sons, perfumes, sabores, amores!
Poesia traduz, transporta, transcende, inspira.

Minh’alma de sonhar-te perdeu-se na bruma do tempo,
Caminhou sem rumo entre rajadas de vento,
Encontrou os paredões da espera,
Vagou vazia em busca de alento.

Minh’alma de sonhar-te caminhou por vielas e becos,
Esbarrou em almas caídas, e em espíritos de luz,
Rompeu com a normalidade; mal sem remédio,
Confabulou com a dor, e com o fel do tédio.

Minh’alma de sonhar-te ri e chora,
Na rotina o coração anseia atento,
Enquanto o movimento da vida convida,
O agora é silêncio e recolhimento.
Minh’alma de sonhar-te ainda espera,
O milagre, a salvação, o livramento.

Minh’alma de sonhar-te alçou voou e foi…
Alcançou os astros e as estrelas,
Arrastou-se também sobre o chão,
Viu-se altiva e pequena,
Miragem, devaneio, pura ilusão.

Minh’alma de sonhar-te percorreu vales,
Desceu ruas, virou becos, subiu lajes,
E sonhando sonhar-te a minh’alma
Virou luz, virou poesia, virou arte.