André Lazaroni: “Minha marca é o diálogo”

220
Créditos: André Fernandes

O deputado estadual André Lazaroni (PMDB) não imaginava que, após 15 anos na política e em seu quarto mandato, seria convidado para gerir a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. Lazaroni é especialista em direito ambiental, ex-secretário de Esporte e Lazer (2013) e assume a pasta em um período turbulento para a política e a economia do Rio. Substituto de Eva Doris Rosental, ele enfrenta os desafios da redução do orçamento, da crise em equipamentos públicos de cultura como as Bibliotecas Parque e da necessidade de reafirmação política da SEC, que ainda luta para evitar sua extinção em um tempo em que a cultura perde cada vez mais força e prestígio entre os setores mais conservadores da sociedade. Estabelecer diálogo com os fazedores de cultura do estado e tornar os equipamentos de cultura autônomos e autossustentáveis é, desde já, sua principal estratégia.

A Voz da Favela: Qual vai ser a prioridade da sua gestão? Já existe orçamento anual?
André Lazaroni: A prioridade é continuar o que já existe. Temos os equipamentos que não podem parar, que são importantes. É preciso torná-los sustentáveis. Como posso fazer isso? Chamando a sociedade a essa responsabilidade. A crise é generalizada. O estado do Rio de Janeiro está em crise, o Brasil entrou em crise. Todo mundo está sofrendo com isso. Se a Cultura não achar a saída para o enfrentamento da crise, a (secretaria de) Fazenda é que não vai achar. Aqui nós temos condições de chamar parceiros, criar projetos sem onerar o estado. É preciso dar sustentabilidade aos equipamentos, ter a secretaria chamando esses coletivos que já fazem cultura para trabalhar junto e tentar achar uma saída. A crise para eles e para as comunidades não começou ontem. Pergunta para o favelado se a crise dele começou agora. Ele já está em crise desde que nasceu. Vamos levar a Cultura para essa turma, fazendo com que eles, mesmo sem dinheiro, tenham pelo menos um apoio institucional. O Fundo Estadual da Cultura, que é um mecanismo de extrema importância, precisa ser regulamentado, e é como a gente pode lançar edital, chamar os coletivos e estadualizar realmente a cultura, além de levar para o interior também. Cortes são necessários, mas achar soluções também.

AVF: Esses cortes já têm previsão para acontecer? Como lidar com a crise?
AL: Ainda não. Vamos dar uma olhada, ver o que a gente vai ajustar, cortar o que não tem jeito. Existem três visões sobre a Secretaria de Cultura. Uma, defende a Cultura na pasta de Educação. Era uma tese que minha mãe (Dalva Lazaroni, professora e advogada, falecida em 2016) defendia. Uma outra, é a Cultura caminhando com Ciência e Tecnologia, porque entende que a Cultura tem que trabalhar o jovem e os demais com um perfil profissionalizante. A terceira via é ficar do jeito que está. Não importa se não tem orçamento, é uma bandeira. A gente vai ter que mostrar que a Cultura sabe fazer muito com pouco. Está na hora da sociedade se mobilizar para não deixar que os equipamentos públicos parem. A visão de que o Estado é provedor está morrendo. A juventude que está chegando é ativa, já faz produções sustentáveis, acha que o Estado tem que ser indutor. São eles que vão tomar o poder daqui a pouco. Mas uma crise gera soluções. É só a gente buscar.

AVF: Como mostrar que a Cultura é importante para se manter enquanto secretaria?
AL: As três teses que citei têm que andar juntas: deixar a secretaria independente, mas trabalhando com a formação, levando cultura para o interior do estado e fortalecimento político. Quando a sociedade sentir que a cultura chegou onde ela está, ela mesma vai exigir. É o que acontece com a educação. É impossível pensar em acabar com uma secretaria. A (Secretaria de) Cultura ainda não chegou ao produtor que está lá na favela, fazendo peças, baile funk, que, na maioria das vezes, é discriminado. Ela ainda não conseguiu chegar a esse camarada, que muitas vezes desconhece a importância da secretaria. É isso que a gente tem que ver: como chegar nesse camarada que precisa do apoio da Cultura. Ele não se sente dialogando com o Estado, exceto através das forças policiais. O diálogo do Estado é o do Estado Juiz. O jovem que está ali não pode só conhecer isso. A gente precisa que o Estado dialogue com esses jovens de outra forma, chegue com educação, saúde, lazer, cultura.

Diálogo é construir com as pessoas o que é melhor para elas.

AVF: É preciso haver um diálogo com os fazedores de cultura.
AL: Sim. Minha marca é o diálogo, o convencimento, a retórica. Quero chamar uma galera, saber como ela veio parar aqui. Eu cheguei aqui pelo diálogo, gestão. Eu sou político, “estou” deputado, gosto do que eu faço e faço porque eu gosto. Vim para cá para tentar fazer algo. Todo dia, quando acordo, penso em como dialogar com o jovem. É difícil, até porque o jovem tem uma rebeldia natural. Mas eu quero encontrar esse caminho.

Créditos: André Fernandes
Créditos: André Fernandes

AVF: O estado tem muitas parcerias público-privadas (PPP), como é o caso da Light e do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento. Isso vai se manter? Como levar para as áreas menos visadas, como o interior?
AL: Tem que ampliar. Não é um diálogo só com as empresas, é com a sociedade. Você tem que ensinar os produtores e coletivos do interior a lidar com a Lei de Fomento e convencer outras empresas a participarem. Quero ser um mascate da cultura, vou rearticular essa rede. A PPP é importante, mas é difícil de se implementar. Depende de dinheiro do governo, envolve um fundo garantidor. Para resolver qualquer coisa disso, hoje, demora um ano. Tem que haver uma parceria com o edital de fomento. As empresas têm que estar dentro da lei de incentivo à cultura pelo ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Vamos chamar a sociedade. O Estado não é meu. É de todos nós. Sociedade civil é isso.

AVF: Nas periferias, a maior reclamação sempre foi a falta de equipamentos de cultura. Existe algum projeto em vista para integrar o Estado e essas áreas?
AL: Já existem alguns, mas a gente pode melhorar. Temos que voltar com as Bibliotecas Parque, levar cultura para as praças. Temos que criar plateia também. O equipamento pode ser bacana, mas nós temos praças que podem ser ocupadas, regiões que podem ser ocupadas. É importante ter teatro e cinema próximo da comunidade, subsidiado pelo Estado. Mas a maioria dos shows que eu vi na Rocinha acontecia a céu aberto. A galera usa isso e precisa de apoio. Vamos chamar para conversar, saber o que eles querem. Não adianta apenas entrar lá e abrir um teatro. Diálogo é isso, construir com as pessoas o que é melhor para elas. Num geral, ninguém quer mais dialogar. Nem minha filha de 13 anos aceita mais que eu diga o que é melhor para ela. Você imagina o conjunto da sociedade…

AVF: Como fica a situação das Bibliotecas Parque?
AL: A (ex-secretária) Eva Doris estava muito preocupada com as Bibliotecas, conversando com alguns parceiros privados. Precisamos reabrir rápido. Vou firmar uma parceria com a Secretaria de Educação para tentar uma ação em conjunto com funcionários da pasta, professores que possam abrir essa Biblioteca com suporte do Estado. É uma pena que as BPs estejam fechadas, porque elas são muito mais que bibliotecas. Elas são uma nova forma de educação. A educação precisa se reinventar. Se a educação não for interativa, o jovem nem vai olhar para ela. A BP é um novo conceito educacional. A escola tem que ter esse modelo, na verdade.

Colaborou Nyl de Sousa.