Mexeu com uma, não mexeu com todas

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Na última edição do “Troféu Imprensa”, premiação promovida pelo canal de televisão SBT, o apresentador e dono da emissora Silvio Santos achou que seria “engraçado” e “normal” “apresentar sua opinião” sobre as ações de uma funcionária de forma grosseira e em rede nacional. Silvio disse à jornalista Rachel Sheherazade (que é conhecida por seus editoriais nada politicamente corretos) que ela havia sido contratada por sua beleza e para ler notícias, não expor sua opinião, dar sugestões e muito menos fazer isso no programa de jornalismo de seu império, da organização em que construiu. Ela havia subido ao palco para receber o prêmio de Melhor Jornalista pela escolha da audiência na internet. A moça ficou claramente constrangida e rebateu, o que não surtiu efeito para que a “bronca” fosse interrompida.

O assédio moral no trabalho – em que o funcionário é tratado de forma grosseira e humilhante – é uma prática cada vez mais comum para mulheres do que para homens. É o machismo, tão presente em todas as entrelinhas. O homem se acha no direito de gritar, cobrar em horas indevidas, na frente de outras pessoas, em rede nacional. Acontecimentos que ocorreriam se fosse com outros homens? Com Danilo Gentili, que têm as mesmas práticas que Rachel, não foi assim. Ele também foi solicitado a não dar opinião, porém, de maneira muito mais branda.

Entretanto, o assédio moral não é a tônica deste texto. Há algumas semanas, atrizes da Globo adotaram o slogan “Mexeu com uma, mexeu com todas”, em apoio à figurinista que denunciou o crime sexual de José Mayer. Muitas feministas adotaram o grito de guerra para afirmar a sororidade em suas vidas. Por outro lado, algumas dessas “manas” declararam repúdio e não solidariedade à Rachel Sheherazade, ainda que tenha sofrido machismo de seu patrão. Alegaram que, por Rachel ter ideais “fascistas”, “justiceiros” e “contra as mulheres” não deveria ser apoiada e, sim, teria que “se lascar”.

Sororidade, apenas a título de lembrança, é um conceito fortemente presente no feminismo, que consiste na união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum. A união para o combate ao patriarcado está indo de vento em popa, mas a luta entre a rivalidade feminina parece não cessar. É hipócrita dizer que há luta com todas as mulheres. Seria mais sincero dizer que, dependendo das diferenças entre pensamentos, ideologias e caráter, a abrangência da sororidade é diferenciada. Sem contar a luta das mulheres negras, completamente à parte.

A resposta de Rachel ao episódio foi mais uma vez irônica ao movimento feminista, dizendo que apenas os inteligentes entenderam a brincadeira entre ela e o patrão. As mulheres ficaram ainda mais iradas pela ousadia. Mas será mesmo que fomos ingênuas a achar que ela reconheceria ser vítima do machismo, esse “mimimi” de gente vitimizada? Ela não dará o braço a torcer. Mas a onda de mulheres precisa ser total. A discussão e a luta deve mirar o homem, que, no caso de Silvio Santos, quase não foi atingido.

Não é minha intenção fazer crítica a um dos movimentos mais importantes e consistentes da atualidade, e com uma luta indiscutivelmente importante. Também não defendo nem compartilho os ideias de Sheherazade. Porém, como diz a ativista e militante pelos direitos da mulher negra Angela Davis: “Nem de longe estou aceitando as coisas que não posso mudar. Estou mudando as coisas que não posso aceitar”.