Maracatu é baile de favela

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Cortejo do Rio Maracatu na Praia de Ipanema. (Créditos: Hudson Pontes / Riotur)

O Rio de Janeiro vive, nos últimos 20 anos, o crescimento de um fenômeno interessante: a ramificação da tradição pernambucana do maracatu de baque virado em terras cariocas. No carnaval carioca dos camarotes e “boas”, o periférico maracatu emergiu como uma das alternativas na ressurreição dos blocos de rua. A inspiração de Chico Science e do Manguebeat parece óbvia. Porém, mais que um fenômeno da (ironicamente) chamada esquerda festiva, os grupos de maracatu do Rio são apenas a ponta do iceberg de um movimento cultural bastante estrito e característico das favelas de Recife.

O maracatu de baque virado ou maracatu-nação (não confundir com o irmão maracatu rural, vagamente conhecido nas terras de cá) é uma tradição carnavalesca pernambucana, que revive a passagem do cortejo de uma realeza negra, com reis, rainhas, damas de passo e outras figuras ricamente adornadas, pelas ruas do Recife Antigo. A percussão alucinante dá o tom espiritual da manifestação, marcado pela batida forte dos tambores e pela “giração” de saias que homenageiam os orixás. Baseadas em favelas e comunidades de baixa renda (tal qual nossas escolas de samba) da região metropolitana do Recife, as nações, agremiações tradicionais como Leão Coroado e Porto Rico, têm como ponto de força uma profunda conexão com a negritude, a fé e a ideia de manutenção de uma tradição.

O maracatu-nação é um modo de vida em comunidade, cujos saberes, crenças, valores e identidade são resguardados mesmo diante da crueza da vida urbana – num senso de irmandade único, especial e marcante no cotidiano das favelas. O debate sobre legitimidade, mesmo dentro dos grupos tradicionais locais, é forte. Apesar disso, o sucesso na mídia de massa do Movimento Manguebeat, que nos anos 1990 jogou os holofotes da cultura brasileira sobre as tradições de Pernambuco, tornou o maracatu um fenômeno. O gênero se espalhou, ganhando ramificações nos cinco cantos do país, especialmente no Rio de Janeiro.

 

Créditos: Raphael Dias / Riotur
Créditos: Raphael Dias / Riotur

 

Desde a fundação em 1997 do Rio Maracatu, primeiro grupo do gênero no Rio, um modelo de cultura tem fomentado a cena cultural alternativa carioca, inspirada nos ritmos tradicionais nordestinos para a realização de festas e, claro, a fundação de blocos. Este é o caso dos grupos percussivos de maracatu, que (diga-se de passagem) não ousam se autointitular nações, apesar de também realizarem grandes cortejos durante o carnaval – o Rio Maracatu arrasta multidões todos os anos na Praia de Ipanema. Além do pioneiro, os grupos Maracutaia e Tambores de Olokum também funcionam desta maneira. Há grupos em atividade ainda na Baixada Fluminense, como o Baque da Mata.

O maracatu no Rio, porém, é algo de outra substância, à parte do movimento do Recife: o caráter periférico original, fundamental e autoexplicativo do movimento aqui foi perdido. Os grupos percussivos cariocas de maracatu sofrem diversas críticas dos mais puristas e do movimento negro. Apontam a suposta incongruência de uma tradição nascida com pretos escravizados a mais de 2.000km de distância e que é agora exaltada por uma juventude branca, de classe média e que não necessariamente está conectada às religiões de matriz africana. O “oba-oba” dos cortejos, convertidos em festas, e o dito uso fora de contexto de símbolos do candomblé também é um ponto que causa estranhamento para quem conhece a fundo a vivência tradicional.

Apesar disso, é importante pensar que a reminiscência foi aqui ressignificada em cores, dança e ritmo. No Rio de Janeiro, o maracatu é essencialmente um gênero musical que ganhou pernas próprias, no qual indumentária, ritos e expressão corporal foram transmutados em uma linguagem diferenciada. Havendo os incentivos certos, esta manifestação cultural poderia se expandir para além das fronteiras do Centro-Zona Sul e seguir a esteira de suas origens: a direção Norte do mapa do Rio e as favelas dos morros e da beira dos antigos mangues – afinal, até isso temos em comum com os nossos irmãos pernambucanos. Com um contingente tão amplo de nordestinos nas favelas da cidade, quem pode duvidar da força que poderia ter a introdução do maracatu nas periferias cariocas? Fica aqui o desejo e o incentivo.

E se a cultura é movimento, que siga o fluxo: que continuemos a fazer da Lapa o nosso Pátio de São Pedro, que rodem as saias de chita sem recriminações e que seja possível ouvir um pezinho de samba na massa sonora do Estrela Brilhante do Recife e até o baque levemente funkeado – que ousadia! – do Estrela Brilhante de Igarassu. O importante é deixar a gira girar, seja onde for.

 

Julianne Gouveia é editora do portal da Agência de Notícias das Favelas, editora do Jornal A Voz da Favela e escreve às quartas-feiras.