Lá se vai mais um pedaço…

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Ontem à noite, soube que o primo Luiz Alberto faleceu. Homem inteligente, brilhante, era mais velho do que eu. Sou a prima mais nova da nossa geração. A família se renova e fecha ciclos. Somos ínfimos face a longevidade do tempo, tão frágeis…

Veio à minha mente que uma parte da minha caminhada já foi percorrida, que as referências da minha juventude estão partindo. Dá uma emoção confusa entre o medo e a curiosidade do que está por vir. Caminhamos arrogantemente por esse mundo cada vez mais ávaro, mais frio, mais vingativo, mais julgador. Em mim, um sentimento de pena de todos: o mundo pelo qual Luiz sonhou e lutou não chegou, mas nós dois viemos de uma árvore forte, de uma família envolvida com o progresso da sociedade, acreditando sempre na imprevisibilidade, no milagre.

Vivemos em um mundo magnífico, com belos rios, lagos, colinas, morros, vales, florestas, montanhas, os oceanos – em toda sua grandeza e seus abismos -, e não conseguimos nos conectar com o espaço que habitamos, com a beleza, com o humano, com o divino.
Como nos distanciamos tanto do amor pela vida, pela chance de estarmos aqui absorvendo tantas energias, tantas experiências? Onde nos perdemos? Onde deixamos de ser humanos? Onde começamos a desdenhar do prazer de ver o crescimento coletivo, da alegria em ver todos progredirem à sua volta? Onde nos embrutecemos tanto?

Antes que meu ciclo feche, quero agradecer a vida pelo prazer de vivê-la, a Deus por ter me dado, além da vida, a luta e a força, também por ter me dado seres para cuidar – destes sei que terei que prestar contas a ele.

A William da Silva Lima, um prazer inenarrável em te conhecer, de ter te encontrado pelo caminho, de ter caminhado ao teu lado. Estamos envelhecendo, vivemos tantas coisas. Você me ensinou tantas coisas e eu te ensinei tantas outras também… Você me mostrou a vida do jeito que ela é: a pobreza, a violência, os porões da cidade, os becos e vielas da favela, lugares aonde antes nunca tinha ido, encastelada que estava no meu mundo burguês. Você me ensinou a ter resistência na luta. Pelas quebradas onde andamos, aprendi contigo a ter coragem e disciplina. As angústias de vivermos foragidos nos manteve unidos, mas lutamos, lutamos com bravura e continuamos lutando. No coração, amor, coragem e cuidado; caminhada guerrilheira.

Mas tivemos infinitas alegrias: Marina Morena, Guilherme, Demétrio, filhos amados, amores da minha vida, e formamos uma família. Nunca mais fomos nem seremos sozinhos, aprendemos a amar o que e quem há em nossa volta. Caminhamos pela vida de forma vigilante e disciplinada. A você, meu companheiro de 33 anos de parceria, meu máximo respeito pela sua luta, pela sua resistência, pela sua coerência, mas, acima de tudo, por ter deposto suas armas por nós, sua família. A você, repito: meu máximo respeito!

A vocês, meus filhos amados, perdão! Perdão por todos os momentos em que eu não estive presente, quando estava no trabalho, na militância, na roda-viva da vida. Perdão por não poder ter oferecido a educação que vocês mereciam. Lutamos agora para que os filhos de vocês e de outros possam ter. Perdão pela luta, pelas veredas intranquilas, às vezes, inseguras pelas quais passamos, pelas cadeias que percorremos para ver seu pai, lugar difícil, triste, aviltante. Perdão! Apesar do grande circo cigano que foi a nossa vida, ela nos fez fortes, unidos, resistentes.

Antes que o ciclo feche para cada um de nós, olhe para o outro ao seu lado e perceba a importância do humano que há em você e nele. Absorva o bem, vibrações de amor. Nada levaremos daqui além do nosso próprio frágil corpo. Só a energia das nossas ações certamente reverberarão pelo universo.