“Já que é pra tombar…”: conheça a Geração Tombamento

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Jully Victorino tem milhares de seguidores nas redes sociais. Créditos: Isabelle Silva

Por Bruno Machado e Nyl de Sousa

Tombamento: do verbo tombar, significa, no vocabulário de uma molecada cheia de atitude, estar por cima, arrasar. Inspirados na música “Tombei” (da rapper curitibana Karol Conka) e falando a língua do orgulho de suas raízes, jovens negros, vindos de bairros pobres e favelas, formam o exército da chamada Geração Tombamento. Estética e tecnologia se tornaram, nas mãos deles, ferramentas política de orgulho racial e autoestima.

“A Geração Tombamento é um movimento negro contemporâneo, que pensa estética e juventude”, resume a moradora da Maré Andressa Soares, de 18 anos. Beleza, moda, atitude, internet e cultura são pontos fundamentais para entender essa galera, que se expressa nas redes sociais, organiza agitos culturais e inspira cada vez mais pessoas dentro e fora das periferias. Quando um negro ascende socialmente, ele só tem o referencial da branquitude. A Geração Tombamento veio para quebrar isso” explica o estudante de Ciências Sociais Arthur Santos, de 21 anos.

Créditos: Bruno Machado
Créditos: Bruno Machado / ANF

Falando contra o racismo velado presente na sociedade brasileira, a juventude engajada do Tombamento aprende a cada dia a lidar com o orgulho das heranças africanas. Tendo enquanto referência musas como a atriz Thaís Araújo, a blogueira Magá Moura e a própria Conka, esses jovens negros deixaram de se espelhar nos padrões europeus e criaram uma imagem própria de si. Roupas inspiradas nos anos 70 e 80, além de maquiagem, cabelos black power e tranças supercoloridos são itens obrigatórios para qualquer um que tombe:

“Passar a amar nossos cabelo, traços e cor de pele é fundamental para combater nossos postos tão marginalizados na sociedade, e foi fundamental para mim”, explica a blogueira e produtora cultural Tay Oliveira, que tem mais de 13 mil seguidores nas redes sociais e virou referência de beleza para as jovens negras da Baixada Fluminense.

Créditos: Bruno Machado
Créditos: Bruno Machado / ANF

A Geração Tombamento também é responsável por uma cena cultural cada vez mais ativa, com a realização de festas temáticas, como Yolo Love Party e a interestadual Batekoo (RJ, SP, BA), e o renascimento de redutos tradicionais da negritude no Rio, como o Baile do Viaduto de Madureira. Jully Victorino, moradora de Bangu que possui mais de 6 mil seguidores no Facebook, é presença certa em diversos destes eventos. “O povo se reúne mais nas festas 0800 localizadas no Centro e na Baixada. Mas é muito raro ainda os eventos cariocas subirem os morros e as favelas”, explica.

Igualdade de gênero, liberdade sexual e política também são algumas das questões em debate. Com a internet e as redes sociais, esses jovens ganharam voz para valorizar sua identidade. “Na internet, cria-se uma percepção de que não se está sozinho enquanto negro, gay, morador de favela, por exemplo. Ao encontrar conteúdos e começar a produzir conteúdos na internet, esses jovens começam a se empoderar”, explica a educadora Carina Dávila, que acaba de defender uma dissertação de mestrado sobre o assunto. O caminho até o empoderamento ainda parece longo. Há quem dentro do próprio movimento negro torça o nariz para essa juventude, sob a acusação de superficialidade. Eles não conseguem enxergar a potência. São pessoas negras que conseguiram criar um referencial de si mesmas numa sociedade que diz que você não pode ter uma personalidade própria sendo negro” discorda Arthur.

Para Jully Victorino, falta união: “Ainda vejo preta se odiando e preto soltando falas racistas”, dispara. Mas, se por um lado, há críticas sobre a falta de discurso e excesso de estética, há o outro lado da moeda: ainda é essa mesma juventude negra e, principalmente, de favela a que mais morre no país: “O olhar que eu tenho é que a própria presença da juventude negra é um ato de resistência”, finaliza Carina Dávila.

 

O Universo do Tombamento

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Publicado na edição de Novembro de 2016 do Jornal A Voz da Favela