Ilhas de amor

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Créditos: Vitor Pastana / ANF

Domingo, manhã nublada, um Bem-te-vi canta lá fora. O início do dia segue aparentemente tranquilo. Poucos carros na rua, um cachorro latindo, mas, no mundo, mil coisas estão acontecendo numa fúria veloz.

Há uma insanidade no ar, um ódio universal, um sentimento de vingança, uma vontade de ferir, de machucar, de fazer sofrer; um ódio que escorre pelas ruas, beco e vielas da nossa cidade. Há um sentimento intolerante aflorando rapidamente na sociedade, um rancor sem culpa.

Há um prazer no ferir, no humilhar, no destruir, que contamina tudo como lepra. Estamos vendo todos os dias o exercício do desrespeito, da desarmonia, da desunião como se fosse uma atividade prazerosa. Os sentimentos de vindita têm sido usados diariamente nas ruas, nos meios de transportes, na internet, nas relações de trabalho, no esporte, no lazer. Tudo foi contaminado pelo ódio insano, pela falta de amor que torna as relações vazias, frias, estéreis.

Tunis, Bali, Nice, Filândia, Russia, Barcelona, Brasil – a loucura tomou conta das relações humanas, os pactos sociais começam a ser rompidos, o mundo está doente e nós, seres humanos, somos responsáveis pelas desgraças que assolam cada canto do planeta atingindo covardemente os mais fracos, os mais pobres, os mais vulneráveis.

Nunca imaginei viver em uma época tão sombria, violenta, desumana, tão sem luz, com o mal germinando em tudo e se alastrando em velocidade máxima.
Mas, ao mesmo tempo, nesse mundo insano vejo ilhas de amor, de resistência social e afetiva que dá sentido a tudo que sentimos e fazemos, pessoas que se encontram reverberando ondas de carinho, respeito, amor, sentimentos que nos tornam humanos, que nos fazem felizes.
Ontem, foi dia da feijoada mensal da ANF, exercício gastronômico familiar com comida boa, cerveja gelada. São muitos amigos compartilhando histórias, esperanças, acreditando que unidos podemos ficar mais resistentes a toda sorte de infâmias que os governantes nos oferecem. Conheci novos parceiros e comemoramos um aniversário. Foi um sábado divertido, com a família reunida.

A troca de energias do bem é muito importante. Não se perder do outro, não se afastar, estar fisicamente presente faz os nossos elos ficarem mais fortes e nossos sonhos mais precisos e possíveis. Apesar de nós, enquanto organização de comunicação comunitária, sempre acompanharmos o dia a dia tristemente violento que se instalou no Rio de Janeiro, é muito gratificante saber que cada um em seu território pode agregar valor à luta por uma sociedade harmônica, respeitosa, igualitária.

A família é muito grande, muitos não puderam ir, mas temos certeza da energia boa que cada um deles fizeram chegar até nós. Esses sentimentos mudam o mundo, e tenho certeza de que podemos sinalizar caminhos melhores para aqueles que nos rodeiam, aqueles com quem, através de nossos veículos, jornal, portal e redes sociais, interagimos.

Apesar da loucura que nos rodeia e indiferença que se aproxima, ainda existem ilhas de amor espalhadas por aí! Evoé!