Ericson Pires e reflexões sobre a cena cultural carioca

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Numa noite dos anos 2000 e poucos, eu tomava um chopp no Hipódromo, na praça Santos Dumont, epicentro do Baixo Gávea. A mesa reunia o que poderíamos chamar de vanguarda artística carioca:  inteligências insubmissas em torno de tulipas geladas. Cada um falava um pouco – ou muito – do que andava fazendo, e eu comentava, fascinado, minhas primeiras experiências andando pelo Brasil, conhecendo as organizações participantes da rede dos Pontos de Cultura, uma política que começava a dar os seus primeiros passos no Ministério da Cultura de Gilberto Gil. Eram comunidades quilombolas, indígenas, terreiros, grupos de teatro de cidades do Brasil profundo, que começavam a dar as caras na cena cultural do país a partir do Programa Cultura Viva.  Lá pelas tantas, um conhecido representante da poesia marginal vira e fala: “Ah, Ponto de Cultura! Aqueles projetos sociais, meninos pobres tocando percussão de lata, tipo AfroReggae?”. Respondi com outra pergunta: poderia a poesia marginal ser definida pelo vai e vem frenético e incessante aos banheiros do Baixo Gávea, prática corriqueira de muitos dos seus expoentes? Estereótipo por estereótipo, cada um reforça o que quer.

Anos depois, em 2009/2010, eu tive a oportunidade de participar na curadoria e produção do Circuito Interações Estéticas, festival que percorreu vários estados do Brasil apresentando as melhores experiências do programa de residências artísticas em Pontos de Cultura, realizado em parceria entre o MinC e a Funarte. Um dos grupos participantes do circuito era o coletivo carioca Hapax, que tinha entre os seus membros o querido e saudoso poeta, agitador cultural e artista multifacetado Ericson Pires. Por conta deste projeto, nós, que éramos apenas conhecidos de mesa de bar, da praia, das festas e da noite, tivemos uma convivência mais estreita, dividindo aviões, hotéis, porres e algumas tretas, interagindo com as cidades e os Pontos de Cultura por onde passávamos. O Hapax fazia um trabalho super inovador na época, usando GPS para fazer uma espécie de cartografia dos sons das ruas, que depois viravam uma instalação / performance apresentada ao público em salas de exposição, galerias, universidades.

Ericson era um dos personagens que estava na tal mesa do Baixo Gávea (não, não foi ele que proferiu a fatídica frase sobre meninos pobres batendo na lata!), e, naquelas viagens, eu lembrei a ele do episódio. Com aquela intensidade hiperbólica toda sua e que o tornava uma figura tão fascinante, Ericson dizia: “a gente não tá sabendo de nada do que tá acontecendo no Brasil, isso tudo é fantástico, é maravilhoso, uma revolução cultural!”. Bem mais pra lá que qualquer Zona Sul, era o Do-In Antropológico preconizado por Gilberto Gil em seu discurso de posse como Ministro da Cultura, naquele momento materializado na convergência entre artistas e Pontos de Cultura em Interacões Estéticas e políticas que fascinavam a mim, ao meu amigo poeta, e a muitas cabeças pensantes e antenadas Brasil e mundo afora.

Ericson Pires, com sua sagacidade e sinceridade desconcertantes, assinalava o óbvio: a chamada “cena cultural alternativa” do Rio de Janeiro se relacionava pouco ou nada com as transformações que as políticas públicas de cultura promoveram na base da sociedade brasileira. Os fazedores de cultura das cidades e estados mais pobres, e mesmo os realizadores culturais  do Rio de Janeiro mais distantes do eixo cultural Baixo Gávea – Vila Madalena (SP) se deram conta primeiro do que estava acontecendo, e embarcaram antes na viagem do encontro do Brasil consigo mesmo.

Posteriormente, o Rio se alinhou com as políticas culturais do Governo Federal, adotando os instrumentos do Sistema Nacional de Cultura: Realização de Conferências Municipais, criação do Conselho Municipal de Cultura, implementação de uma rede municipal de Pontos de Cultura. Mas parte importante dos agentes do setor na cidade só passaria a se relacionar com as políticas públicas para o setor cultural a partir de 2013, quando o setor teatral da cidade reagiu ao fechamento da Rede Municipal de Teatros devido ao incêndio da boate Kiss em Santa Maria (RS), o que provocou o cancelamento de espetáculos e temporadas. Este episódio fez surgir um dos movimentos mais interessantes da vida cultural carioca nos últimos 10 anos, o Reage Artista, com suas várias ramificações e desdobramentos (Ocupa Lapa, Ocupa Escola etc.), e que, desde então, se posiciona como um dos mais relevantes atores da cena político-cultural da cidade.

O Reage Artista contribuiu de forma decisiva para uma maior politização do setor cultural carioca. Em sintonia com o espírito do tempo, surge poucos meses antes da explosão das ruas em junho de 2013. Nas ruas, afirma a sua identidade como movimento, amplia suas pautas, passa a debater não só as políticas culturais como também a cidade, o espaço público, a segurança pública, os temas sociais. Ocorre que, felizmente, a história não começou em junho de 2013. Havia todo um acúmulo de discussão e de experiências importantes, na sociedade e na cultura, no Rio e em várias cidades do Brasil, que já vinham acontecendo antes, durante e depois. Se, como diz o poeta, o Brasil não conhece o Brasil, o Rio de Janeiro, imagem projetada do país para o mundo, caixa de ressonância dos grandes temas nacionais, concentrador de boa parte da nossa indústria cultural (basta falar das Organizações Globo), parece ainda conhecer e se relacionar muito pouco com o que acontece no Brasil em termos de política cultural, sejam as políticas públicas governamentais, sejam as iniciativas desenvolvidas pela sociedade. Os exemplos são muitos, eloquentes, e podem ser tema de um próximo artigo.

Por ora, o setor cultural carioca está imerso em uma acentuada polarização. O não pagamento do último edital de fomento à cultura lançado pelo governo Eduardo Paes, e a rolagem da dívida ainda não paga na gestão de Marcelo Crivella fez com que artistas e gestores públicos municipais se pintassem para a guerra. A crise econômica e política atinge os dois lados, e enquanto os primeiros reclamam o justo e legítimo cumprimento do que lhe foi conferido por expectativa de direito em edital público, a Secretaria Municipal de Cultura define as reivindicações como oriundas de uma parcela dita elitizada do setor cultural, e promete ampliar os recursos para as periferias e os territórios populares. No entanto, em um quadro recessivo e sem o apoio e a confiança dos agentes culturais da cidade, a conta não fecha. Podemos criticar a gestão de Eduardo Paes em muitos aspectos, mas é inegável que, na cultura, os recursos foram ampliados e descentralizados para os diversos territórios da cidade. A conjuntura política e econômica da cidade e do país eram outras.

De positivo, podemos destacar os encontros dos Movimentos pela Cultura, que hoje agregam diversos setores da vida cultural do Rio de Janeiro. Estes procuram falar não somente dos artistas, mas dos trabalhadores da cultura. É um avanço, sem dúvidas. Mas ainda insuficiente se levarmos em conta que todos produzem cultura, e não somente os que trabalham ou vivem dela. A finalidade de uma política cultural não deve ser atender o artista, o produtor cultural, ou mesmo o trabalhador da cultura, seja ele do centro ou da periferia.  Estes são parte fundamental de qualquer política para o setor cultural. Mas o objetivo, o ponto de chegada de qualquer política pública tem que ser o cidadão, as pessoas, o conjunto da sociedade. Só quando chegarmos neste alcance e nesta escala, teremos a cultura na centralidade de um projeto estratégico de governança local ou nacional. Essa foi a sacada de Gil, quando definiu que a marca de sua gestão como Ministro da Cultura seria a abrangência. Uma abrangência do tamanho do Brasil, que encantou e fez brilhar os olhos vivazes do meu amigo Ericson Pires.