Entrevista: Simone Menezes, militante dos direitos dos presos

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Simone Menezes ao lado do marido, William da Silva Lima, durante o lançamento do livro "400x1 - Uma história do Comando Vermelho". (Créditos: Tiago Nascimento / ANF)

Foi em um festival de poesia no Instituto Penal Cândido Mendes, cadeia de segurança máxima na Ilha Grande (RJ), que tudo mudou para a jovem estagiária do Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro (Desipe). Baiana de Salvador, a história de Simone Menezes é a do amor de renúncia que virou militância. Há 33 anos, ela deixou a vida confortável de estudante universitária, nascida em uma família de políticos, para se tornar a mulher do então presidiário William da Silva Lima, o Professor. Parte dessa história está registrada no livro 400 x 1 – uma história do Comando Vermelho, escrito por William e lançado pela ANF Produções em setembro.

Aos 57 anos, mãe de três filhos e avó de três netos, Simone é uma defensora dos direitos dos encarcerados, chegando a fundar em 2002 a Afap – Associação dos Familiares e Amigos de Presidiários do Estado do Rio de Janeiro. Dividindo-se entre o trabalho com o deputado federal André Lazaroni (PMDB) e os cuidados com o marido – em liberdade condicional há dez anos –, ela agora deseja retomar mais ativamente a militância que marcou sua trajetória.

 

A Voz da Favela: Como nasceu sua militância junto aos presidiários e à Afap? Quais eram os objetivos da associação?
Simone Menezes: Em 2003, num dos retornos do William ao sistema penitenciário, ele foi encaminhado para Bangu 1. Era um sistema pesado. Poucos trabalhavam, poucos estudavam, como é até hoje. Isso, aliás, incentiva uma série de desvios, pois a ociosidade é uma desgraça. O preso não é coitadinho, mas tem direitos que devem ser preservados, como qualquer pessoa. Era preciso implementar a Lei de Execução Penal, que foi criada em 1982 sem nunca ter ido para frente e que fala exatamente disso. Não tem como você recolocar uma pessoa na sociedade em uma atividade laboral, produtiva, se ela ficou dez anos ociosa. Cadeia deveria ser um local de preparação para a vida social. Chegamos a um ponto não só de repressão, mas de tratamento desleixado em relação ao preso mesmo.

A família é vital para o presidiário.

Com a bagagem que eu tive na Faculdade Nacional de Direito (onde estudou por quatro anos e meio), a gente começou a fazer questionamentos aos diretores de unidades prisionais. Então, eu e mais algumas mulheres fundamos a Afap – Associação de Familiares e Amigos de Presos do Estado do Rio de Janeiro em 2002. Era isso que a gente discutia: o Estado tem dever de oferecer ferramentas a esse homem, não só isolamento. O discurso não era paternalista. Exercitávamos a não vitimização. Éramos cidadãs e cobrávamos parceria do Estado. O embate não é bom para ninguém, nem para o preso, nem para família e nem para o funcionário, que vive sob pressão e tensão. Em 2003, chegamos a botar três mil pessoas na rua. Mas houve um período em que o William ficou foragido, e a Afap se desarticulou. Queremos nos organizar de novo. Estão surgindo outras associações, mas quanto mais lideranças melhor. Elas podem agregar valor na discussão de quem é essa população. São mais de 600 mil presos no Brasil.

 

AVF: Certa vez, você afirmou que os parentes de presidiários são tratados como páreas da sociedade. Como você vê isso hoje?
SM: Tempos atrás, a família era vista como cúmplice. Mas não é bem assim, tem muita gente decente. A família precisa perceber que ela não é vítima, ela pode ser autora de transformações profundas e positivas, não deve ter vergonha desse preso. É importante que ela sinalize isso para o Estado, que ela também possa ser um veículo de interligação entre ambos. É do interesse da família que o preso retorne bem à sociedade, trabalhando, mostrando isso aos filhos. Eu me sinto muito orgulhosa de ter entrado na vida de uma pessoa e agregado valor positivo. O William nunca mais deu tristeza a ninguém. Ele descobriu que precisa gostar dele mesmo e dar graças a Deus por ter construído uma família legal. Isso é quase um milagre dentro da família marginal: um homem casado há 33 anos com a mesma mulher, com três filhos e três netos. Nessa vida louca, complexa, difícil, emocionalmente tensa, construir coisas duradouras e estruturadas é uma vitória.

 

AVF: Na época de criação da Afap, o estado vivia um período de rebeliões constantes em presídios. Por que vivemos a aparente calmaria de agora? O diálogo maior com o Estado pode ter tido influência?
SM: Esse período de tranquilidade veio por conta de algumas questões, que incluíram um novo olhar dos familiares sobre o próprio preso. Foram criadas algumas organizações pelas próprias famílias, uma aproximação delas entre si enquanto grupo. Além disso, houve ainda a renovação do sistema com novos funcionários assumindo cargos de chefia. O afastamento de lideranças internas das unidades prisionais aqui do Rio proporcionou também não uma espécie de equilíbrio, mas de um certo limbo, uma imobilidade do próprio sistema. Isso não quer dizer que os presidiários estejam bem. Continuam a existir graves questões de saúde e jurídicas, além da superlotação. A cadeia precisa ser a última resposta, não a primeira.

Quem milita pelos direitos dos presidiários não lida com facções.

AVF: Há denúncias de ameaças e relatos de sequestros de familiares de líderes de facções criminosas, que vivem em favelas pacificadas, por parte de policiais. Sempre foi assim?
SM: Nada mudou, só a nomenclatura, de DPO para UPP. Sequestro sempre houve. Na Avenida Brasil, um monte de mulher que saía da visita na cadeia era levada, trocada… Isso não é novidade. Mas a leitura particularmente que eu faço é que quem milita pelos direitos dos presidiários não lida com facções. O que nos une, independentemente de sexo, raça, localidade, é o fato de todos estarmos na mesma situação: sob a tutela de um Estado que não é pai e que, na maioria das vezes, é mesmo padrasto.

 

AVF: Uma das polêmicas comuns quando se fala de direitos dos presidiários é o chamado auxílio-reclusão. Como você vê isso?
SM: O auxílio-reclusão é um direito como qualquer outro do cidadão que recolhe impostos para a sua aposentadoria. O grande problema é que a gente vive num mundo extremamente midiático e numa situação pré-convulsiva. Não são todos que têm acesso a esse direito. Até a década de 1980, havia um perfil diferenciado de criminalidade: era o crime contra o patrimônio, praticado por adultos que comumente trabalhavam e recolhiam impostos para o INSS. Era um crime de sócios, porque eles rateavam entre si o que conseguiam de forma igualitária. A partir dos anos 1980, quando se começa a falar em drogas de uma forma mais aberta, o crime ganha outro perfil. Ele passa a ser praticado pelo jovem que não está empregado, que tem no tráfico o primeiro emprego. Hoje, existe um percentual muito pequeno de beneficiários. Quem recebe é a família, e há uma série de etapas a cumprir, entre elas, comprovar mensalmente que o contribuinte continua preso. Esse benefício também não é integral, mas percentual, calculado sobre a contribuição. Pessoalmente, eu acho que devia haver contrapartida. Todos deveriam ter direito, mas quem está aqui fora deveria estar fazendo alguma coisa para que pudesse agregar valor a essa história.

 

AVF: Para finalizar, o que é mais doloroso na rotina de quem tem um familiar preso?
SM: É tudo muito complicado. A saída da visita, por exemplo, é muito sofrida. É uma vida das madrugadas. É uma vida insegura, porque você não sabe o que vai acontecer no outro dia. É também uma vida falaciosa, porque você acaba mentindo sobre você mesma. Existe uma baixa autoestima, você é vista como cúmplice. A mulher de presidiário sempre dá milhões de desculpas para justificar à sociedade a ausência daquele marido. Os filhos também são orientados a fazer isso. Então, você acaba criando essa coisa esquizofrênica de não ser você mesma. Amar um homem que está preso é um amor de renúncia. Você passa boa parte do tempo esperando esse homem, tentando criar condições para que ele volte diferente. É por esse retorno que a companheira também deve trabalhar. É a parte que nos cabe nesse latifúndio. Nós somos solidárias na dor. Acabamos sendo parceiras nessa caminhada meio doida, meio turva. A família é vital para o preso, é raiz matricial. É preciso trabalhar a qualidade dessa influência.

Publicado na edição de Dezembro de 2016 do Jornal A Voz da Favela.