Entrevista: Raull Santiago

Um dos membros do Coletivo Papo Reto fala sobre midiativismo, favela e a situação da segurança pública no Complexo do Alemão

796
Créditos: Bento Fábio

No dia em que esta entrevista foi realizada, numa pracinha tranquila na Grota, Raull Santiago foi ameaçado mais uma vez. Era dia de mais um dos chamados “plantões problemáticos” do Complexo do Alemão, conjunto de favelas ocupado por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) desde 2010. A gravidade das ameaças por parte de policiais militares o fez deixar temporariamente a favela. Mas nada disso pode parar o midiativista de 27 anos, que em um dia filma arbitrariedades na Nova Brasília e em outro, fala para autoridades de direitos humanos nos EUA. Filho de família nordestina e da cultura maker, Raull é uma das oito cabeças pensantes do Coletivo Papo Reto, que divulga nas redes sociais os problemas do Alemão. Mas, em vez de só repercutir o discurso midiático da violência, ele quer focar no que a favela tem de bom: mesmo sem formação acadêmica em jornalismo, levou essa vontade para quase dois anos de trabalho no canal a cabo Globonews, com documentários sobre cultura periférica. Agora, Raull Santiago pretende, com a inspiração de parceiros internacionais, como Anistia Internacional, Witness e o movimento norte-americano #BlackLivesMatter, mobilizar ainda mais gente na construção de dias melhores para a sua galera.

A Voz da Favela: Qual é o principal problema da cobertura da mídia sobre a favela?
Raul Santiago: O principal problema sempre foi fazer essa comunicação de fora para dentro. A mídia só vem aqui para cobrir operação policial, nunca para saber como é a realidade. É claro que a gente não nega a existência do tráfico, mas muitas vezes o próprio Estado é quem alimenta essa problemática. E, no final de tudo, a versão oficial dos fatos é uma nota hipócrita da polícia, veiculada em toda a imprensa. A mídia cobre só a violência, e de forma errada, sem um mínimo de diálogo e sem tentar uma aproximação construtiva com o morador da favela.

AVF: E como foi, então, trabalhar com a mídia hegemônica, na Globonews?
RS: Eu nunca me privei de ouvir e construir em conjunto com pessoas que busquem uma redução da desigualdade, independentemente de serem da favela ou não. A ideia lá era não falar de violência, coisa que a mídia hegemônica já faz, e mal. Fizemos documentários sobre coisas positivas, com um mapeamento de expressões de cultura popular no Brasil. Com tudo que represento, eu tinha a convicção de que é importante fazer alguns diálogos. Pude ver como acontece o jornalismo de lá para cá e criticar por dentro. Também fiz cobertura ao vivo na época do caso do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos de idade (assassinado na porta de casa, no Complexo do Alemão, por um policial militar em abril de 2015). Era a oportunidade de gerar debates e construções ao vivo. Queria falar disso sem falar de tráfico nem de polícia, mas das vítimas, de como era ruim a guerra às drogas. Tudo isso resultou positivamente, porque a gente ficou quase três meses sem violência aqui.

As violações de direitos humanos só afastaram as pessoas de uma política com a qual nunca tiveram proximidade

AVF: De que maneira você vê as redes sociais como uma voz midiática contra-hegemônica?
RS: Elas são uma das principais ferramentas hoje. Dia desses, eu estava refletindo sobre como a internet aproximou as pessoas nas favelas. Quando eu era mais novo, mesmo não envolvido com o crime, não circulava entre as favelas por causa da rixa das facções criminosas. Com a internet, isso ficou em segundo plano. As pessoas perceberam aquele espaço como um local para denunciar e para o que tinham em comum, principalmente em relação aos problemas. Mas, apesar dessa potência enorme, é um espaço muito recortado. Hoje, no Facebook, por exemplo, as postagens não têm o alcance pleno da sua rede de amigos. Ela cria uma bolha. Vejo tudo isso como um marco de mudança que traz uma nova disputa por narrativa e políticas públicas, mas há também esse processo de alto controle e acúmulo de dados para uso exploratório comercial. Não existe uma segurança mínima para se atuar. A galera de favela precisa lutar por investimento em conhecimento básico de informação, do que significam essas redes.

AVF: O Coletivo Papo Reto já nasceu com esse formato de redes sociais?
RS: Sim. Hoje, temos um alcance mensal que varia entre 150 a 500 mil pessoas. Mas quando é que você atinge mais gente? Quando você fala de problemas. A gente tem pensado em como mudar isso. Quando você tem um corpo, uma tragédia extrema, isso tem muita visibilidade. Quando é algo legal, às vezes, nem bomba. O alcance varia muito nessa situação. O problema tem um boom bem grande, as soluções, nem tanto.

AVF: Nesse momento, com o Complexo do Alemão policiado ao extremo e um aumento da violência, os problemas são muitos. Como você avalia esse fracasso da UPP?
RS: Começou errado no momento em que só a polícia foi vista como solução para melhorar a realidade. A gente só discute a favela como foco do problema do tráfico, mas nunca se discutiu investimentos para valorizar a estrutura física local e a vida do morador. Apenas se atuou a partir da lógica da guerra às drogas sem discutir esse mercado ilegal. O tráfico não sai da favela para buscar armas e drogas. Tudo isso chega aqui por meio de esquemas com pessoas poderosas da sociedade. Quando você coloca aqui uma polícia problemática e jovens policiais despreparados, trabalhando apenas na ótica de guerra, só pode haver situações bizarras de abuso de poder e sentimento de revolta. Eu associo à presença da UPP a redução da idade dos jovens que caíram na criminalidade, mas não como estratégia do tráfico para se manter, e sim como uma consequência que expõe o total fracasso dessa política. Agora, o governo diz que está falido. A preocupação em diversas favelas pacificadas, com tantos policiais de arma na mão e salários atrasados, é que o Rio se torne logo uma das cidades com a maior milícia do mundo.

AVF: Mas houve algo positivo durante a ocupação? Ou não?
RS: Cara, houve pequenas coisas. Chegou um momento em que não houve confronto. A presença da UPP gerou uma expectativa quanto ao que seria dali para frente. Mas houve apenas a violência da polícia e crimes bizarros cometidos por ela como nem o tráfico fazia. Você tem desde o policial que faz refeições no restaurante da favela e não quer pagar, passando pelo sequestro de familiares de líderes de facções que estão presos, até o assassinato de pessoas via auto de resistência. As violações de direitos só afastaram cada vez mais os moradores de uma política com a qual nunca tiveram proximidade. A principal proposta da UPP era o fim do tiroteio. Hoje, a gente tem a favela cercada e operações policiais acontecendo em horários inacreditáveis, com grande fluxo de pessoas. Não consigo ver avanços. Vejo mais como uma contenção da camada pobre do Complexo do Alemão. Combater o crime é simples: é investir. É médio e longo prazo. Não é militarizar o espaço e doutrinar a partir da força.

AVF: E como você vê o futuro do Complexo do Alemão de maneira mais imediata?
RS: Nunca tive tanta incerteza sobre o que a gente está construindo. Mas tenho esperança em dias melhores, apesar de tantos problemas, por conta da grande quantidade de moradores cada vez mais engajados em construir, de forma coletiva, uma realidade diferente. A crescente de consciência e vontade participativa das pessoas vai causar uma revolução aqui dentro do Complexo do Alemão. A gente já chegou ao extremo de tudo que poderia chegar de ruim. Então, acredito que vamos começar a tentar construir dias melhores.

AVF: Dentro desse novo momento na favela, como o Coletivo Papo Reto pretende se posicionar?
RS: A gente está saturado de trabalho. Não pretendemos diminuir o ritmo, mas multiplicar o que fazemos por meio de oficinas de audiovisual, direitos e tecnologia. As pessoas têm morrido no Complexo do Alemão, têm sido agredidas, têm havido crimes forjados. Então, quebrar a barreira do medo é o nosso principal foco.

Publicado na edição de Outubro de 2016 do Jornal A Voz da Favela