Entrevista: Página Bastardos da PUC

ANF conversa com um dos fundadores da página que está fazendo barulho nas redes sociais com relatos de preconceito social

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Dividir experiências de racismo e preconceito em uma das mais conceituadas universidades do Rio de Janeiro: esse é o mote da página Bastardos da PUC, organizada no Facebook por alunos bolsistas da PUC-Rio. A página já soma quase 10 mil curtidas e ganhou destaque em diversos veículos de comunicação na última semana.

A PUC-Rio é amplamente conhecida como uma das melhores universidades privadas do Rio de Janeiro. A instituição conta também com um amplo sistema de bolsas de estudo para alunos de “perfil filantrópico”, que correspondem a 51% dos alunos matriculados. Assim, os filhos da elite carioca dividem espaço com estudantes de baixa renda, selecionados após um árduo processo de seleção de bolsistas. Os atritos são inevitáveis e a dureza dos relatos impressiona: professores insensíveis à realidade de quem teve menos acesso a cursos de línguas, piadas preconceituosas e exclusão dos círculos sociais são alguns dos exemplos que tornam gritantes as diferenças sociais não só na instituição, mas para todos que desconhecem a vida “do lado de lá”.

A Agência de Notícias das Favelas conversou com Gabriel Gomes, estudante do 7º período de Comunicação Social da PUC-Rio e um dos seis fundadores da página Bastardos da PUC. Morador de Bonsucesso, ele acaba de organizar um dos primeiros encontros presenciais do grupo e garante que este é só o primeiro de muitos projetos de uma galera que, apesar dos olhares tortos, tem muito pra revolucionar.

 

Agência de Notícias das Favelas: Quantas pessoas fazem parte atualmente da organização da página? São todos bolsistas/prounistas e moradores de periferia

Gabriel Gomes: Na página diretamente, são cerca de 6 pessoas. Todas são oriundas de periferia e bolsistas. O coletivo, porém, abriga mais gente e está em constante fase de captação de novos membros. É importante salientar que aquele espaço é apenas um dos projetos que o nosso coletivo deseja desenvolver. Dividimos nosso plano de ação em algumas fases e a primeira era criar alguma ferramenta que nos gerasse visibilidade e identificação rápida com o público. Nesse curto espaço de tempo, já estamos alcançando alguns pontos bacanas, como o retorno da galera que, pela primeira vez, se sente representada e o apoio de alguns professores.

 

ANF: Qual era a necessidade para criar uma página sobre relatos de alunos bolsistas/moradores da periferia da cidade? Por que o nome “Bastardos”?

GG: A necessidade nasce da escassez de espaços de representatividade para o público bolsista/periférico dentro do ambiente acadêmico. Tivemos grande aderência de pessoas de outras faculdades. Isso mostra que o problema é maior e mais recorrente do que se imagina. Uma fala muito comum nos comentários e mensagens que recebemos é: “Nossa, isso já aconteceu comigo, eu poderia ter escrito esse relato”. O nome “Bastardos” surgiu com o intuito de provocar e também fazer uma analogia ao termo “Filhos da PUC” (muito utilizado pelos estudantes da universidade).

 

ANF: Existe algo em comum nos relatos?

GG: Há alguns pontos em comum, sim. Por exemplo, algo comum é o preconceito territorial. Os alunos não bolsistas costumam desconhecer algumas zonas do Rio de Janeiro e tecem comentários preconceituosos e ofensivos sobre os territórios populares em que os bolsistas estão inseridos. Há também vários casos de professores que desmerecem os alunos apenas por serem prounistas e bolsistas. Outra questão está nas diferenças sociais visíveis em pequenas coisas do cotidiano, como o acesso (transporte) à universidade, a alimentação, os repertórios de vida no que diz respeito a viagens e coisas do tipo.

 

ANF: Como funciona o processo de publicação dos relatos? Vocês publicam todos que chegam?

GG: Nos dividimos nas postagens, para não ficar um trabalho pesado para ninguém. Temos um filtro, mas, até agora, nenhum caso fugiu da proposta da página. Todos foram postados.

 

ANF: O que vocês pretendem fazer com esses relatos? Qual é o objetivo de vocês com a página?

GG: A página é apenas um dos projetos que pretendemos desenvolver. Dividimos nosso plano de ações em algumas fases, onde a primeira era criar visibilidade e impactar. A página está cumprindo bem esse papel e, a partir dos relatos, estamos fazendo um mapeamento dos casos, por exemplo. Além disso, já estamos articulando diálogo com órgãos responsáveis da PUC-Rio e tentando a cada dia mais unir as pessoas que passam pelo mesmo que nós. Estamos só começando, muita coisa vai vir por aí!