Deus mesmo, quando vier ao Brasil, que venha armado

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Créditos: Reprodução Internet

Clarice Lispector tem um texto belíssimo que fala sobre as vantagens de ser bobo. O bobo, que ao se tornar “o ignorado”, consegue levar a vida com aquela dose de sonho e crença no mundo. Ignoscere é um verbo em latim que significa “não conhecer”. A ignorância pode ser tomada aqui, nessa origem, como sinônimo do “se não conheço, desconheço e não reconheço”. Seria, então, o desconhecimento voluntário do que não reconheço. Se há algo muito próximo desta ignorância é a nossa conhecida não-compreensão da alteridade, o fato de que existe um outro além de mim. Se não conhecemos, não compreendemos; se não compreendemos, não podemos ver. Daí a distopia que tanto nos atinge ultimamente. Nesses tempos, cresce a dureza sem ternura que leva à incompreensão, à “indiferença” e à banalidade do mal.

Viver é o nosso primeiro direito humano. Já disse Elisa Lucinda que “a vida não tem ensaio”. É esta a que temos. Nosso direito. Com Elisa concordo e me alongo no exercício de pensar sobre os nossos dias sombrios, dias de inércia total e de pulsão de morte. A dor e o luto são coletivos e quem não os compreender que atire a primeira pedra. É fácil atirar. Isso, sim, uma bobagem. Porque quem atira pedras atira em qualquer direção, e tem gente que vai atirando até cair, para todos os lados – até o fim, como quem morre e mata em grande agonia. É aquele pessoal que quer vencer pelo berro, pela hipocrisia e pelo verniz da superioridade.

A bobice, eu acredito, pode ser adquirida ainda em tenra infância. Na minha época de escola, por exemplo, eu era aquela garotinha que levava a equipe nas costas e fazia o trabalho sozinha. Vocês devem conhecer uma figura assim – ou podem ser ou ter sido uma figura assim. Algo que poderia passar simplesmente como um gesto de bobice, de solidariedade, passa a ser confundido então com “o ser otário”. Sabe aquele doce de padaria que atrai um monte de moscas, aquelas famintas a fim de levar sua lasquinha? Este é o bobo – ou otário.

Pois bem, o bobo é assim, atrai os espertos com seus badulaques, espelhinhos e seus monopólios de consumos e ideologias. O hipócrita que vomita dez frases de efeito poderá ser visto como um sujeito genial. As mídias são invadidas por políticos de ocasião que mal se sustentam nas pernas de suas tolas palavras e medidas, fazendo uma mistura de chanchada e terror, filme B regado à mentira, canalhice, nepotismo e toma-lá-dá-cá. As artimanhas de sempre, as bélicas, as que matam. Bobos não costumam sobreviver por muito tempo nessas velhas estruturas em metástase. São logo expulsos como corpos estranhos. E passam a viver em exílio na própria terra, como acontece em períodos ditatoriais.

Bobo, sim, era Jesus Cristo, disse Clarice. Acreditava no perdão. Acreditava na humanidade. Minha avó, que era boba e vivida, dizia que, se ele voltasse, o crucificariam de novo na mesma cruz. Eu sei que tem gente por aí que ia querer dar umas boas chibatadas até em Cristo. Tem uma lista deles na fila de espera – uma quadrilha de assassinos de possibilidades, de aniquiladores dos afetos. Gente má. Gente que não perde a chance de puxar um tapete, de fazer vilanias, de espelhar e espalhar crueldade por onde passa, distribuindo ofensas preconceituosas, pragas de maldição, profecias e outros bichos mais. E vão gritar nos ouvidos das minorias, das crianças e daqueles que parecem indefesos. Haja veneno explodindo!

Como sobreviver à figura do vampiro que se intensifica e se fortalece diante de nós, no nosso imaginário? Estamos no tempo da pergunta. Não à toa “o vampirismo” se torna hoje a representação mais recorrente daquele que nos rouba “a energia”. Basta ver os tantos roteiros cinematográficos que se valem deste mote ou ainda os que retratam sociedades de zumbis, de mortos-vivos em cenários catastróficos de absoluta destruição. O mundo anda doente e o imaginário salta das telas dos cinemas.

Nenhuma metáfora talvez sirva melhor do que a do vampiro e seu apetite voraz, este tipo de ser que vive à sombra, nas trevas, sem deixar emergir o que há de solar de uma terra, um país, um povo. Aquele ser que fica à espreita, observando o menor descuido, para abocanhar a carne, a alma, a aposentadoria, a sorte e a vida de muita gente honesta e trabalhadora. Os seguidores do vampiro vêm correndo atrás, na maior sanha de ambição desmedida e aproveitam para jogar um tanto de sal no território e matar qualquer intenção de luta, qualquer fertilidade possível de outra narrativa. São predadores, e por isso precisamos ainda mais proteger as nossas criaturas e as nossas criações, as artísticas, as culturais – as humanas. Até porque eles estão por aí em muitos lugares, nas melhores e nas piores famílias. Entram pelos gabinetes e repartições levando cada qual uma corja de pequenos seres rastejantes ao redor. Vampirescos, dantescos… Dante, por sinal, nem poderia ter projetado este quadro do inferno que é a capital dos nossos dias.

Não, não estamos perdidos – ainda. Eu sinto que a mesma realidade que nos afasta da esperança e de qualquer confiança no futuro será o motor que nos levará de volta para elas. Mas, por enquanto, é preciso ir para o combate acompanhado de banho de ervas, muita chuva de pipoca, água benta e estaca. Não creio em bruxas pero que las hay las hay. Lembrando Grande Sertão – Veredas: “Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”.

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Doutora em políticas públicas e educação, formada em Literatura, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". É integrante do coletivo "Mulherio das Letras" e colaboradora do coletivo Rebento.