Deu match! Ou não? Preconceito em aplicativos de relacionamento

1023
Créditos: Reprodução Internet

Tinder, Grindr, Brenda, Hornet, Happn, Badoo, Kick Off, DateMe… Febre entre os jovens do mundo todo, os aplicativos de paquera facilitam cada vez mais a vida dos solteiros. Mas as dificuldades para quem vive na periferia não mudam: usuários moradores de favela relatam episódios de preconceito e discriminação por parte dos chamados “matches”.

Baseados em geolocalização ou interesses em comum, os aplicativos de relacionamento oferecem uma gama de possibilidade para aqueles que querem conhecer pessoas e, quem sabe, encontrar um par. O mais popular deles, o Tinder, possui mais de 250 milhões de usuários ativos. No Brasil, também são muitos populares o Happn, que mostra outros usuários que estão a menos de 1 km uns dos outros, e o aplicativo gay Grindr.

Foi em um desses apps, o Hornet, que o estagiário da área contábil Pablo de Sá viveu algumas más experiências. O jovem de 17 anos afirma que muitos usuários encerram a conversa após descobrirem que ele mora na Vila do João, na Maré. “Inúmeros caras que não moram em favela me bloquearam ou pararam de responder. Uma vez, eu me relacionei com uma pessoa que parecia ter boa condição financeira e sempre fazia piadas sobre como eu deveria me portar por ser morador da favela”, afirma.

Segundo diversos relatos, esse tipo de preconceito é constante:

– Uma vez, conheci um cara, e nos encontramos em um shopping aqui por perto. Conversamos sobre vários assuntos, mas na terceira vez em que saímos, contei que morava na Cidade de Deus. Desde esse dia, ele sumiu, não atendeu mais as minhas ligações. Deixei de usar aplicativos. As pessoas que moram fora da favela acham que quem mora aqui não tem bagagem cultural para manter um bom papo ou algo do tipo, conta André Luiz, de 25 anos, que já usou Tinder e Grindr.

Mentir sobre o lugar onde se reside é também uma estratégia para não afastar possíveis matches: “Conversei com caras daqui da Maré que diziam morar em Bonsucesso. Estou acostumado a esse tipo de resposta”, pontua Pablo de Sá. Já a moradora do Morro do Salgueiro Renata Aquino omite a informação por razões de segurança. Ela teme se envolver na guerra entre facções rivais:

– Sempre faço questão de conhecer a pessoa num lugar público para eu me sentir mais segura. De primeira, eu sempre falo do bairro onde moro, mas não dou especificações da minha comunidade porque tenho medo das brigas de facções. Acabo contando quando pego intimidade, mas nunca me ocorreu um caso desses.

O problema, porém, não está nos aplicativos, mas nas relações entre as pessoas dentro da cidade.

– Se na favela onde você mora há bandidos, não significa que você também é um. Mas as pessoas preferem olhar o favelado como um só, como se todos fizessem tudo igual, pensassem igual. Isso é uma pena, finaliza Pablo.

 

Gostei ou Não gostei?

Saiba como funcionam os aplicativos de relacionamento para smartphone

tinderTinder – O Tinder funciona baseado em curtidas e descurtidas, similar a muitos outros no mercado. Após conectar sua conta do Facebook ao aplicativo, o usuário é direcionado à página inicial, que conta com fotos dos(as) pretendentes e, logo abaixo, um símbolo de coração para o famoso “match”, e um “x” para rejeitar a sugestão. O Tinder utiliza o GPS para oferecer opções de pessoas em um raio de quilômetros pré-determinado.

grindrGrindr – É o app mais popular entre homens gays e bissexuais. Também utiliza geolocalização e mostra usuários em um raio curto de distância. Funciona de maneira diferente dos outros aplicativos, pois qualquer um pode enviar mensagens a outro usuário, independentemente de ter havido ou não o chamado “match”. Os participantes da rede também podem trocar fotos.

happnHappn – O app se baseia em geolocalização e mapeia os lugares por onde o usuário passa, mostrando uma lista das pessoas que literalmente cruzaram seu caminho.

 

 

datemeDateMe – Neste, o usuário pode preencher informações que incluem preferências, objetivos, tipo especial de pessoas, entre outras.

 

 

Publicado na edição de Janeiro de 2017 do Jornal A Voz da Favela.