Derrubar o apartheid carioca

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Créditos: Reprodução Internet

“Um tiro acaba de acertar a janela da minha casa! Irresponsabilidade geral!”

A moradora gritava, revoltada, em pleno Facebook, junto a outros indignados.

O helicóptero da Polícia – patrimônio do Estado, comprado com recursos públicos recolhidos junto a toda a população – não atua desta forma em todos os espaços da cidade. É um helicóptero seletivo, nas mãos de uma polícia seletiva, a mando de um Estado seletivo.

É uma quinta-feira, do ano de 2017, e o helicóptero sobrevoa o Complexo da Maré. Não apenas sobrevoa: atira. Atira muito, do alto para baixo, colocando em risco tudo e todos.

Nas escolas, a criançada está toda deitada no chão, junto aos professores. Estão encolhidos, mãos nos ouvidos, assustados. E segue a Guerra infinita, sem resultado e sem conquista. Ou melhor, tem resultado, sim: resultado negativo, horroroso, infame. São mortes de crianças, mulheres grávidas, adolescentes, idosos… Em sua imensa maioria, quase totalidade, moradores de favelas. Morrem também policiais e bandidos. É só sangue derramado, morte e ganho social zero.

Nas redes sociais, a população se comunica e tenta se proteger minimamente através de páginas como o Maré Vive (viva a comunicação comunitária!). Na grande mídia, nada. Absolutamente nada.

“O águia passando e dando tiro nas casas e no meio da rua, um perigo imenso esses tiros pegar em um civil inocente. Em troca de tiro entre um e outro sempre um morador se dá mal. Cuidado se (sic) pessoal . Toda atividade é pouca, Deus no controle sempre.”

Tenho a impressão de que essas cenas vão se repetir. Já vimos algo assim. Há poucos anos, numa perseguição policial, o helicóptero da polícia também largou o aço sobre uma comunidade na perseguição a um traficante. Tudo filmado. Bala voando sobre casas, sobre a rua, nas telhas e caixas d’água… Mas, na televisão, um especialista disse que estava tudo ok, tudo dentro do mais perfeito profissionalismo, que não houve risco algum à população… Claro, claro…

E o menino Eduardo? Não foi morto pelo policial “em legítima defesa”?!

Precisamos de palavras à altura de tamanhos absurdos. Vivemos, no Rio de Janeiro, um verdadeiro apartheid. Temos ou não um sistema de segregação? Temos ou não temos uma parte da população com menos direitos e mais exposta à violência estatal?

A grande missão de nossa geração e das gerações vindouras é provavelmente essa: derrubar o apartheid carioca.

Fecho esta coluna de hoje com o apelo de uma moradora nas redes sociais:

“A situação das favelas cariocas só pioram, a gente só chora, só enterra, só corre e se esconde dos caveirões, dos tiros. Hoje não consegui sair de casa. Quando eu cheguei no portão de casa o caveirão invadiu e voltei correndo p casa. Só quem mora nesse lugar tem ideia do que é viver essa tensão de ter um helicóptero mandando bala do alto em cima de nós, todos nós. É muito ruim saber que a gente, eu, nós favela, não valemos nada. Nós não valemos nada! Não é possível que o mundo não veja isso, não é possível que a gente não tenha apoio, não é possível que os gritos de cada um não seja pelas vidas negras, pobres, faveladas, pelo povo que tá morrendo de tiro e psicologicamente todos os dias. Não é possível…”

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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"