Comunicadora da Maré recebe Medalha Pedro Ernesto

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Gizele Martins recebe o certificado do vereador Renato Cinco em reconhecimento à sua pelos diretos dos favelados. (Créditos: Charles Monteiro / ANF)

O sábado, 16, foi um dia de muitas emoções e homenagens a uma das mais ativas comunicadoras comunitárias do Rio. Gizele Martins recebeu na Maré a Medalha de Mérito Pedro Ernesto, a principal Comenda da cidade do Rio de Janeiro, pelo vereador Renato Cinco (PSOL).

A entrega da medalha ocorreu no Museu da Maré, dentro de “sua casa”, como Gizele gosta de frisar, por ser ali o espaço onde aprendeu a ser uma cidadã atuante, que defende e luta por seus direitos – uma mulher que descobriu em si o que é fazer, na prática, comunicação comunitária.

– Quando a gente faz uma homenagem à Gizele, estamos fazendo uma homenagem às favelas e toda a luta e resistência que existe dentro das favelas. Então, acho que não fazia sentido tirar essa homenagem daqui. Quando a gente vem pra cá homenagear a Gizele, a gente está homenageando toda a Maré e todas as favelas do Rio de Janeiro, explicou Renato Cinco ao contar o porquê da cerimônia não ter sido realizada dentro da Câmara Municipal, como acontece normalmente.

A homenagem contou com a participação de diversos moradores do Complexo da Maré, Acari, Vila Autódromo, Duque de Caxias, entre outras comunidades, além de representantes, líderes e companheiros de movimentos e lutas populares, jornalistas comunitários, estudantes de comunicação, parentes, amigos, amigas e outros admiradores de seu trabalho.

“Eu agradeço muito por essa homenagem. Agradeço por esse momento. São muitos anos de luta, resistência, tristeza, corrida de caveirão, corrida de tanque de guerra, subindo e descendo o morro. Estou muito feliz em estar aqui vendo a cara do povo e toda essa diversidade”, conta Gizele Martins.

 

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Momento de entrega da Medalha de Mérito Pedro Ernesto, a principal Comenda da cidade do Rio de Janeiro.

 

A comunicadora comunitária batalha para honrar suas raízes, mesmo quando teve que frequentar as instituições acadêmicas de classe média alta. “A favela não vive, ela sobrevive. A gente não tem que ter vergonha e dizer ‘eu sou favela’. Quem tem que ter vergonha são eles, que não nos respeitam”, afirma.

Em entrevista à edição de agosto de 2017 do Jornal A Voz da Favela, Gizele Martins contou que a militância começou ainda nos bancos do curso pré-vestibular do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm). Foram quatro anos até ingressar como bolsista no curso de Comunicação Social da PUC-Rio. Seu professor nos tempos de cursinho, Leon Diniz se emocionou ao lembrar da trajetória da homenageada.

– Quando chegou, a Gizele tinha uma dificuldade imensa em escrever. A gente podia destruir ou construir. Ela ia no pré-vestibular e não desgrudou mais. Então, a gente foi caminhando, construindo junto e hoje a gente se encontra onde tem que se encontrar, na área e nos encontros de direitos humanos.

 

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Leon Diniz contou sobre a experiência e o crescimento da homenageada no Ceasm. (Créditos: Charles Monteiro / ANF)

 

Antes da cerimônia de homenagem, o Museu da Maré sediou a mesa de debate “Militarização da vida e resistência nas favelas cariocas”, com a participação da doutora em comunicação e cultura e comunicadora popular Renata Souza, a trabalhadora ambulante Maria dos Camelôs, a integrante do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura Patrícia Oliveira e a coordenadora da Justiça Global Glaucia Marinho. Em seguida, o Grupo Atiro e MaréMoTO (núcleo do Teatro do Oprimido da Maré). O show do grupo Som de Preta encerrou a noite de sábado, que ficará registrado na memória da Maré e de todos aqueles que estiveram presentes.