Como são estranhos os nossos moralistas

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Alexandre Frota e Fernando Holiday (Créditos: Marcus Galiña / ANF)

Vocês ficam assustados com o crescimento deles. Eu fico mais assustado com a sua, digamos, singularidade.

O MBL – Movimento Brasil Livre está aí, fazendo uma cruzada contra corpos nus em exposições, levando grupelhos histéricos aos museus, defendendo uma visão estreita e medieval de moral e bons costumes. Só que nossos moralistas têm um jeito todo próprio.

Um dos líderes deste movimento é o Fernando Holiday, atualmente vereador na Pauliceia Doriana. Ontem, assisti a um singelo debate entre Fernando e o Alexandre Frota. Frota registrou e agora é dono da marca MBL – Movimento Brasil Livre. Isso mesmo. Alexandre Frota detém a patente do MBL. Por isso o barraco a seguir.

É incrível e instrutivo diálogo que eu gostaria de ter inventado! Ah, como eu adoraria ter satirizado essa desjuventude assim! Mas não foi preciso. Eles também querem acabar com dramaturgos e satiristas! E, neste propósito, produzem seu próprio material. Leiam abaixo um mashup deste maravilhoso ato de fantástica dramaturgia autossatírica.

“Fernando Holiday: Dono do MBL é uma pinoia!
Alexandre Frota: Vocês não são donos de p**** nenhuma. Vocês não passam de meninos mijões.
Fernando Holiday: Seu hipócrita de m****! Nunca foi do MBL e nem nunca será!
Alexandre Frota: Já que você quer jogar tão forte, eu vou reabrir aquele processo seu, de caixa 2, da sua campanha.
Fernando Holiday: Porque aqui, pra participar, você precisa ter caráter!
Alexandre Frota: Falar que sou ladrão, tarado por travestis, o que não é crime, inclusive… Eu repito, você é um garoto faixa branca. Você e aquele japonês que tá do seu lado (Kim Kataguiri), o Renan (Santos) e todos aqueles outros do MBL. São garotos… Garotos contentes, alegres… E mijões.
Fernando Holiday: Precisa ter vergonha na cara!
Alexandre Frota: Aliás, as últimas manifestações dirigidas pelo MBL, vocês sabem, foi um fracasso total. Nós podíamos contar nos dedos quantos jovens estavam lá, balançando as bandeirinhas.
Fernando Holiday: Você é um aproveitador de m****!
Alexandre Frota: Tarado eu sou, sim. Mas não por essa sua bundinha. Entendeu? Essa sua bundinha é seca. Fraca. Se eu boto você de quatro, você não guenta. Você morre ali mesmo.
Fernando Holiday:  Precisa ter vergonha na cara! E não ser um aproveitador!
Alexandre Frota: Deus me iluminou. E fez com que a minha vida mudasse.”

Estes são nossos líderes morais que querem fechar museus e censurar obras de arte. Frota pode ficar nu. Se seus filhos, de qualquer idade, digitarem “Alexandre Frota vídeos” no google, eles terão experiências muito mais singulares que em qualquer exposição queer da vida.

Acho que esses meninos do MBL são jovens humoristas – todos sem talento. Todos papagaiando um aglomerado de ideias desconexas, personificando clichês da nossa direita mais emburrecida. É muito triste ver jovens nesta faixa etária assim, sendo conservadores faixa-branca, como diz Frota – o pensador nu, de ideias eretas, encaixadas perfeitamente, expostas em todas as redes, ao alcance de mouses e menores.

Frota, o pensador peladão e panamoroso, poderia virar instalação permanente em qualquer Museu Queer mundo afora. Pena que ele não se vê assim. Quer porque quer ser líder moral. Sai dessa, Frota. Você é faixa preta do desbunde!

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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"