Catástrofe é oportunidade?

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As autoridades definham. Todas elas. A avalanche de problemas, a escassez de soluções, a minusculosidade das transformações, o tempo como duração de expectativas que se frustraram. O tempo como palco de uma peça que não aconteceu.

Desintegração, dirão os otimistas, também é oportunidade. Poderemos agarrar as linhas soltas do tecido social que se esgarça ou rompe e criar novos laços, redesenhando o todo aos poucos, com relações mais horizontais, menos demarcadas. Uma pólis em ruínas pode gestar, quem sabe, novas rotinas para renovar democracia e república.

Mas algo estranho acontece. As hierarquias seguem levantando o seu estandarte. Não importa que a guerra tenha sido um desastre completo, vexaminoso, a hierarquia desfila orgulhosa suas fardas e age como coordenadores eternos de todas as tropas através dos tempos.

As instituições pervertidas de seus propósitos. O planejamento social civilizatório saindo pela culatra.

Estas palavras desenham um caos. Mas vejam bem. A normalidade é uma força, é um deus, é um Sistema Solar. Ela, força psíquica ilusória, pode fazer subsistir, em estruturas estraçalhadas, posturas forjadas no êxito que já se esvaiu.

Eis nossa cidade (que cada um pense a partir da cidade que o cerca): catastrófica. Logo após o ano olímpico, vem ele, desafiante, escrotizador de nossas pretensões, ridicularizador de toda uma década arrogante de políticos playboys extasiados de propinas e dolce vita, todos maquiados por uma mídia prostituída por muito ouro, protegidos por uma Justiça cujo medo de processo me impede de qualificar com toda a liberdade; logo após, vem ele – o horrendo ano catástrofe.

Catástrofe clara. Hecatombe das pretensões. As ruínas da Uerj bombardeada. Os hospitais adoecidos, moribundos. A cultura sucateada. A multiplicação dos suicidas. A fantasia reciclada dos tanques e fardas. As multidões sem salário. As crianças baleadas em pleno recreio. As armas verborrágicas e as tribunas inúteis.

Aonde quero chegar? Quero dizer que a cidade é um desafio de todos. Somos todos urbanistas. Devemos todos falar sobre a cidade, pensá-la, reinventá-la, geri-la, ocupá-la. O Estado não sabe como agir. Não sabe. Os especialistas não sabem o que fazer. Não sabem. As respostas virão em partes, de cidadãos que estão em outras posições. O poder público vai compreender isso ou vai seguir falindo, vexaminoso, sem resultados, em todas as áreas, através dos tempos futuros, que cada vez nos levam mais adiante no abismo.

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Dramaturgo, diretor teatral, ator, educador e ativista cultural. Escreveu e dirigiu o espetáculo "Mundo Grampeado - Uma ópera tecno-tosca" entre outras produções da Cia Monte de Gente, fundada em 2006. Participa ativamente do movimento Reage Artista e foi um dos articuladores do Ocupa Lapa. Coordena, desde 2015, o projeto Ocupa Escola, que atua em 25 escolas municipais do Rio de Janeiro levantando a bandeira "Toda escola é um centro cultural". É também idealizador do Facedrama, ferramenta de dramaturgia coletiva online. É autor das peças "Entregue seu coração no Recuo da Bateria", "Um de Nós - A Saga quase olímpica de um judoca iraniano" e do musical infantil "Aninha contra o Feiticeiro de Lixoxxx"